Arquivo mensal: outubro 2014

Enfim, o palco!

    Não há sensação melhor no mundo, do que tocar ao vivo: é o reflexo de tudo que você estudou e você preparou à tempos, para apresentar ao público. Mas e quando isso vem do nada, sem aviso prévio? Clama, que eu explico! Fui chamado para um apresentação numa ong de uma amiga, iria na boa, com meu humilde violão, até que pensei: ” se toquei com minha banda sem ensaio no workshop, e deu certo, porquê não tocar com eles, ensaiando antes?”. A temática era simples: escolher algumas canções em que todos pudessem se divertir, tocar, e improvisar, tal qual faziam as bandas dos anos 70. Led Zeppelin, Deep Purple, Cream, são a escola de tal vertente, ainda mais quando se toca em trio. Alan Viera, meu aluno de guitarra, que passou para o baixo, no intuito de fazer certas dobras, improvisos, e sem um pingo de pudor na hora de se jogar em prol da canção, e Érick Diniz, um dos melhores bateristas da região, com peso e groove. A temática foi adentrar o universo blues rock, e o injetar peso e improvisos. As escolhidas foram ”Everyday I Have The Blues” ( Elmore James ), ”Caleidoscópio” ( Paralamas ),”Down em Mim” ( Barão Vermelho ), ”Cocaine” ( Eric Clapton ), um momento de loucura plena, em que arriscamos puxar um blues e seja o que Deus quiser, e o fechamento com ”Foxy Lady” do Hendrix. Tudo certo, então? Mais ou menos, já que o pouco tempo e compromissos, fizeram que o ensaio ficasse fracionado: uma vez ensaiei com o baixista, noutro dia, com o baterista. Poucos dias antes, pra completar a loucura, a outra banda dos meus amigos Alan e Érick , a Hacrópole, não poderia tocar, pois o baixista original, estaria escalado para o trabalho. Eis que surgiu a ideia, de levarmos nosso projeto no lugar ( afinal, 2 integrantes são os mesmos ). Antecipei todas as aulas para o dia anterior ( ficar numa quinta dando aula de 10h até 22h é cansativo ), mais algumas aulas na sexta, até que chega à noite, uma passada rápida na casa do batera, passa cada música uma estrofe, beijos, tchau! Partimos para casa de show. Vimos a banda que tocou antes, eu malucamente, com a guitarra no pescoço e metrônomo no ouvido, já aquecendo, até a chegada a hora. Pelo line- up do dia, o foco era algo mais alternativo, mas como seria a reação do público, e como soaríamos? Afinal, o primeiro show de verdade! Com a nomenclatura de ”Herick Sales & Woljtek Band ”     ( um tributo descarado à Stevie Ray Vaughan & Double Trouble ), subimos e começamos a tocar ”Everyday I Have The Blues”. Ao que tudo indica, o público gostou e a química começou a dar certo. As músicas ganharam mudanças, como ”Down em Mim”, que ganhou peso e um toque de Gary Moore nos solos. Mas o ápice foi o momento jam, em que foi puxado um blues em E7, passou para um rock estilo Chuck Berry, fechando com ”Whole Lotta Love”. Até agora não sei como isso tudo saiu sem erros. Por fim, ”Cocaine” ( do vídeo ), rendeu um solo destruidor de baixo do meu camarada Alan, que impressionou muita gente, que só o conhece como guitarrista, e fechamos com Foxy Lady. Yes! Foi! Tudo correto, certo, poucos problemas técnicos e a sensação de trabalho feito. Particularmente, ao voltar, mesmo de madrugada, treinei mais um pouco, até chegar a dormir com a guitarra. Dia seguinte, mais correria, levando equipamentos para a ong. Problemas técnicos a mais, faltando equipamento, correria para sanar isso, espaço menor, mais correria, mas foi. Repertório idêntico, porém dotado de improvisos diferentes, e a jam, deu lugar a uma base country e toques fusion no fraseado de guitarra. Eis que cai a ficha: 2 shows, em menos de 24 horas! Nesse momento agradeci a Deus a oportunidade, vi o quanto foi bom tanto tempo de estudo em minha vida, ter tido a dedicação dos meus amigos de banda, e por ter a chance de trabalhar com música. Só faltou fechar com um bom passeio, e uma caipirinha para comemorar!

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Virtuosismo: afinal, é válido?

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    Antes de qualquer coisa, virtuosismo, vem de virtude, logo ser virtuoso no instrumento, é ter virtudes para com o mesmo, que ao meu ver, é dominar bem sua execução, e não apenas ‘’velocidade’’. Mas vamos lá. Onde surgiu isso? Não há data específica, mas ele tomou traços muito fortes, na era do Romantismo, e apesar de pouco se saber sobre sua exata data, digamos assim, teve seu pontapé inicial, em 1733, em Amsterdam, com a publicação da obra L’Arte del Violino (“A Arte do Violino”) por Pietro Antonio Locatelli. Tal livro, continha uma coleção de 12 concertos , tendo um capriccio ( vem de “capricho”, que é um tipo de composição caracterizado pela forma livre, geralmente de caráter rápido, intenso e virtuosístico) para violino solo no primeiro e no último movimento de cada concerto, como uma espécie de cadenza ( vem de ‘’cadência’’, passagem virtuosística, quase sempre baseada em temas expressos anteriormente na obra , na qual o solista tem oportunidade de mostrar sua técnica).
Então, porquê essa explicação? Simples. Há uma certa teima e digo até ignorância de certas pessoas, que simplesmente cismam em dizer que guitarristas que fritam na guitarra, não possuem feeling, que isso não é tocar guitarra, e etc, e nunca procuraram ver um pouquinho da história da música. Gosto não se discute. Conhecimento, sim. Grandes cançôes que emocionaram e marcaram, utilizam sim, o virtuosismo como uma das ferramentas ( leia o que eu disse: como uma das ferramentas! ), de suas composiçôes. Da música erudita ao rock e suas vertentes, do blues ao metal, passando pelo flamenco ( salve Paco de Lucia e Al Di Meola ). A questão é saber usar isso ao seu favor, para engrandecer a música. Certa vez, um músico na qual tenho total respeito, e tive a oportunidade de tocar, João Castilho, guitarrista que já tocou com Ed Motta, Maria Bethânia, Djavan, dentre outros, disse que na música, menos é mais, porém, pode ser menos mesmo ( imagine o mestre B.B. King tocando no …Megadeth para você entender…). Muitas notas podem entupir uma música de informação desnecessária, mas certas vezes, pode dar um up grade emocional incrível, levando o ouvinte a outras sensações . Então, há casos, em que a música precisa de mais elementos para tomar forma, e você não dá, seja por não ver, ou…falta de capacidade! Yes! Aqui está o dedo na ferida! É enormente mais fácil dizer que detesta trechos rápidos, velocidade, e etc, do que sentar o rabo na cadeira, e estudar/treinar mais, para alcançar um maior apuro técnico, para a execução de uma música, ou determinada idéia. A questão chave é saber usar, delinear a melodia através da mesma, criar um elemento surpresa, trazer você para outro trecho da canção, fator que muitos músicos pecam ao ficarem jogando notas a esmo, afinal, saber empregar a técnica é essencial, pois já ouvi muita gente querer fazer um solo melódico, com poucas notas, com escolha pífia de notas, sem usar corretamente as ferramentas de expressão necessárias ( bends, vibratos, ligados, ser preciso, etc ). Porém outros grandes músicos usaram o virtuosismo com maestria , criando canções históricas, ricas e intrigantes. Abaixo, trago exemplos belos de virtuosismo empregado com outras ferramentas, soando extremamente musical. Logo, depois de tais provas, simplesmente esbravejar contra, em parte, é desdenhar de boa parte da música de qualidade, e em alguns casos, esconder de si mesmo, a preguiça e falta de capacidade.

Onde está o fator humano na música?

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     Sei que posso parecer chato com certos assuntos, e sou mesmo. A música anda cada vez mais industrializada, levada apenas para o fator rentável, em detrimento do sentimento e da arte. Em se tratando de rock, há cada vez mais uma pasteurização sonoro horrenda, em que nada mais é reconhecível, nada mais possui uma identidade, e tudo soa perfeito e redondo demais, sem que um filete de pegada a mais seja registrado. Tudo é homogenizado, passado por uma quantidade infinita de plug-ins, que faz tudo soar robótico e igual. Com todo o respeito a quem gosta, mas lembram da onda new metal? Quantas centenas de bandas surgiram iguais, com os mesmos elementos, sem tirar nem por, mesmo vocal, mesmos timbres, mesma sequência de notas, e sem um pingo de inventibilidade? Hoje em dia vejo bandas de uma nova safra, que berram como se fossem botar um rim para fora, no limite da desafinação, dá uma quebradinha na música, e vem um refrão que muitos denominam como ”melódico”, que geralmente é algo choroso, e volta ao peso e fim. Não há um elemento na guitarra identificável, um diferencial, uma mistura de componentes que traga frescor, e espontaneidade. Não preocupação com o groove e nem mais com solos, muitas das vezes. Eu sei, existem exceções, mas cada vez mais tudo soa igual, e cada vez mais, você pode ser menos competente, que existirão mil formas de acobertar suas falhas. Sinceramente, estou cansado de bandas com letras e ferocidade falsas, que tentam ser maduras e violentas, mas não deixam de soar como adolescentes de 14 anos revoltadinhos. Sinto falta de bandas que interajam entre si, com todos os músicos mostrando a que vieram e feeling humano, seja de forma mais voltada para canção, como Pearl Jam faz muito bem, ou mostrando técnica absurda, mas a favor da música, como faz hoje em dia o Winery Dogs. Bandas que ousem, que tragam um leque diferente de influências e através dessa mistura, algo que soe fresco. Não digo novo. Nada na música há de ser novo. Mas que traga algumas abordagens misturadas, e com um outro ponto de vista, assim como Pantera fez por exemplo: pegou vários elementos de bandas que gostava, como o Metallica e Slayer, e botou groove e uma perspectiva nova, ou como fez o Miles Davis e Chick Corea, que pegaram o jazz e salpicaram de mil experimentos, e criaram músicas desafiadoras e atípicas. Estou cansado de bandas que possuem arranjos de guitarra não-orgânicos, que mais parecem terem sido moldados num computador com timbres planejados, bateristas que parecem metralhadoras pré-programadas, e baixo que está ali de enfeite. Cansado de Imagine Dragons e Black Veil Brides da vida, e bandas pseudo intelectuais de terninho. Sinto falta de bandas que tragam seres pensantes, com características próprias, e sentimentos de verdade, e não de plástico, para agradar molecadinha desmiolada. Sinto falta da época em que músicas, não eram números dentro de um álbum, que servem de pretexto pra lançar um disco físico com som, e sim em que músicas, traziam alma em si, e compunham obras, e que cada integrante dessa obra, fazia parte da banda, trazendo suas características, pontos de vista e no somatório, criavam aquilo que a tempos atrás era genuíno, e conhecido como arte.

O riff perfeito!

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Tonny Iommi e Brian May: Fábricas de riffs.

    ”Um riff é uma progressão de acordes, intervalos ou notas musicais, que são repetidas no contexto de uma música, formando a base ou acompanhamento. Riffs, geralmente, formam a base harmônica de músicas de jazz, blues e rock.”
Fonte: wikipedia

    Que me desculpem os moderninhos, mas não se faz mais tantos riffs bons quanto antigamente. Vejo por muitas vezes, bandas batalhando quantidade de notas, saltos e técnicas, num mesmo compasso, com rítmica reta, e sem uma marca registrada, sem algo que grude em sua mente. Dia desses, ouvi uma banda de grande sucesso da garotada hoje em dia ( não citarei nomes ), e ouvi uma puta agressividade, mas com um riff que não grudou. Simplesmente, ao fim da música, se tocasse novamente, eu não saberia dizer que música era. E quando não é assim, ocorre aquela sensação ruim deja vu, de que você já ouviu aquilo antes, e não foi uma vez só, e sem aquela característica própria na pegada e no timbre. Certa vez, quando questionado se ouvia metal atual, Tonny Iommi disse que não, pois era chato ouvir algo, que ele já tinha feito muito parecido antes. Presunçoso? Talvez, mas com certeza ele não está errado. Um riff possue característica marcante que te leva junto com a música, e não interessa ao ouvinte, se você está usando 789 notas, tappings, ou o cassete a quatro. Certa vez João Castilho disse em seu livro ”Estudando Improvisação”, que muitos músicos se prendem apenas ao contexto harmônico, e não levam em conta o ritmo. Você pode usar a mesma sequência harmônica para tocar um rock, ou um funk, mas seus improvisos precisam se valer de cada linguagem. Com os riffs, a mesma coisa: muitos se preocupam somente com dissonâncias, velocidade, quantidade de notas, e não dão atenção suficiente ao ritmo, ao groove, e até mesmo a pausas. Muitos falam do riff de ”Smoke on the Water” ou o de ”(I Can’t Get No) Satisfaction”, que são em demasia simples, porém, você seria capaz de ter feito um riff tão marcante, que figurasse como histórico? Ou até mesmo rápido e cheio de notas como o de ”Master of Puppetes” , mas em que cada nota está no seu devido tempo e lugar? Seria capaz de compor um riff soturno, pesado, e simples, como o de ”Refuse/Resist”? Há uma magia em compor riffs que leva a música pra frente, embala a própria, e quando bem costurada, gruda na mente do ouvinte. Gosto de Dream Theater, mas quem nunca ouviu milhares de riffs bons numa música só deles, que mal tiveram tempo de sobreviver antes de ser trocado? O riff, seja lá se é feito com single notes, power acordes, ghost notes, ou uma nota, precisa ter vida, e fazer quem te ouve vibrar e servir de alimento para sua canção, favorecendo quem sabe, para que ela se torne especial para alguém além de você e seu ego, como esses caras abaixo, fizeram com maestria.

Ergonomia, cuidados ao tocar, e o avanço técnico

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    “Ergonomia Física: lida com as respostas do corpo humano à carga física e psicológica. Tópicos relevantes incluem manipulação de materiais, arranjo físico de estações de trabalho, demandas do trabalho e fatores tais como repetição, vibração, força e postura estática, relacionada com lesões músculo-esqueléticas’
Fonte: Wikipedia

Bem, possui um linguajar mais rebuscado, mas creio que dê pra notar que tem somente TUDO a ver com música. Querendo ou não, tocar guitarra ou violão, é um exercício físico, e demanda preparo, já que horas serão empregadas para o pleno desenvolvimento e estudo do mesmo. Abaixo, alguns detalhes simples, porém importantíssimos:

1) Antes de praticar, se alongue! Alongue braços ( igual na educação física), e os dedos se possível. Isso deixará seus músculos mais bem preparados para treinar e puxar as cordas. A cargo de curiosidade, cordas de guitarra calibre 0.10, variam no peso de 7 a 8 quilos de tensão por corda!


2) Se aqueça, meu querido! Exercícios simples sempre ajudam a relaxar mais, e soltar vossos dedinhos. Vale chamar a namorada afim de aquecer os dedos de outra forma também;


3) Sente vosso popozão, numa cadeira confortável, que lhe permita ficar um bom tempo sem causar nenhum tipo de incômodo, nem desconforto. Coloque a guitarra encaixada na perna, se preciso, mexa de lugar. Por exemplo, se eu for tocar algum exercício nas casas agudas, eu levanto a danada, e deixo-a apoiada na outra perna. A guitarra vem até seu corpo, e não a coluna até ela. Veja o que fica confortável, sem esforço. Afinal, é para você se manter relaxado!


4) Sabe essa cadeira que você escolheu? Provavelmente ela tem encosto. Pode encostar nela de boa, e deixar a coluna reta. Não precisa ficar arcado igual os arcos da Lapa na hora de tocar. Saiba que ficar com a coluna torta, pode trazer milhões de problemas, dores na mesma e nos seus lindos bracinhos;


5) Relaxe! Repito: relaxe! Guitarra e violão, possuem já suas dificuldades. não piore a situação fazendo mais força e se travando. Descubra qual o mínimo de esforço que você precisa fazer para apertar a corda, o mínimo de movimento com os dedos para trocar de posição, e tudo muito relaxado! Não adianta botar força! É jeito. Com a prática você vai tendo melhor condicionamento físico para certas coisas ( bends de 2 tons e meio, por exemplo), e sua velocidade virá sem esforço. Tem muito mais a ver com tirar o pé do acelerador, do que fazer força para acelerar;


6) O mundo não vai acabar amanhã. Pode fazer pausa pra comer, levantar da cadeira, beber uma água pra não dar pedra no rim, se alongar novamente, etc. Você pode tocar guitarra o dia todo, mas faça pausas a cada 30 minutos, no máximo 1h, e relaxe uns minutos, vai dar uns beijos, e depois volte. Deixe a tendinite descansar no inferno;


7) Se for fazer um exercício por longos períodos, repetitivo, alterne com outro exercício diferente. Faça-o por um tempo, treine outro, volte, treine outro, depois volte, assim por diante. E relaxado sempre!!! Ficar fazendo exaustivamente o mesmo movimento, causa LER ( lesão por esforço repetitivo ). Só há um tipo de movimento repetitivo em que fazemos pressão que não faz mal…


8) Ponto crítico: tocar em pé. Aqui, será algo bem pessoal, mas você não pode forçar o ângulo do seu braço. Respeite seu corpo! Mas uns podem dizer ” Jimmy Page e Zakk Wylde botam a guitarra lá embaixo” . E eu digo: eles são ricos, famosos, viajam o mundo, e… são maiores fisicamente. Não adianta se comparar. Capaz deles esticarem o braço e coçar o pé. Coloque a guitarra à uma altura confortável para si! Ah, sabe aquela levantadinha de guitarra, que o guitarrista faz, ao fazer um solo nas casas agudas, e faz parecer que o cara é fodão, ou besta? Então, é só pra alcançar as últimas casas, sem se contorcer igual a uma lagartixa.

    Enfim, dicas simples, mas que ajudam na saúde e melhor aproveitamento dos estudos. afinal, seu corpo, é seu principal instrumento! Conheci pessoas que tiveram longos períodos sem tocar por não se policiarem com isso. Se dê condições para desenvolver seu trabalho/estudo melhor, e com certeza, os rendimentos vão lhe recompensar. Ah, e o que essa foto tem a ver com isso? Simples: de cara podemos notar que a moça está com a coluna torta, e vai tocar sem correia, tendo que aguentar o peso da guitarra no pulso, o que causará dores na certa! Que péssimo exemplo…