Arquivo mensal: novembro 2014

Você está pronto para a música?

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    Canso de ouvir, e ler sobre pessoas que têm o sonho de tocar guitarra, violão, bateria, teclado, triângulo, seja o que for, ou que querem evoluir nos mesmos, seja para se profissionalizar, ou saciar uma grande e inquieta vontade de aprender um instrumento. Ótimo! Mas o sair da ‘‘vontade’’ e partir para a ‘’ação’’, muitas vezes toma proporções de abismos, que nós mesmos separamos mais e mais, ou juntamos, a ponto de com um passo, possamos atravessar de um ponto ao outro. Dou aula a muito tempo e o que canso de ler é que ‘’não tenho tempo’’ ou ‘’não tenho dinheiro’’, para consertar ou comprar instrumento, estudar, etc. Sei perfeitamente que todos temos tempos de apertos maiores, com afazeres mil, e época em que se comprar uma bala, falta no orçamento. Mas na grande maioria das vezes, não é bem assim. Um sonho! Quanto vale de fato, seu sonho? Quanto de tempo ele merece? Não estou falando diretamente com ninguém, convido apenas a uma reflexão: você está pronto para a música? Ela está pronta para você sempre, basta você aceitá-la! Alunos mil, e e pessoas simpatizantes do instrumento falam que não possuem tempo, mas o arrumam para sentar no sofá para ver um programa bobo na tv, vão em festas até certo ponto idiotas para qualquer um acima de 12 anos, e ficam on line 24 horas por dia no facebook se deixar. Da mesma forma que já vi gente dizer que não tinha dinheiro pra comprar cordas novas para guitarra, e puxa na minha frente, dinheiro para comprar 2 litros de Coca-Cola, com um ‘’podrão’’ qualquer. Todos nós temos anseios profissionais, e algumas prioridades inabaláveis, mas quando a música, será uma delas na sua vida? Conheço uma aluna, que relatou que quando jovem, sempre quis tocar, pois era fã do Hendrix. Ela pensou: ‘’vou estudar agora o que tiver que estudar na escola, pois quando for mais velha, poderei aprender a tocar guitarra’’. Resultado: hoje ela está mais velha, com menos tempo do que antes, e na mesma. Força de vontade, planejamento, e organização são as palavras-chave. Vejo essa relação como entrar numa academia, ou fazer exercícios físicos: muita gente vai falar que não tem tempo, mas quando a pessoa quer emagrecer, precisa, arranja-se um jeito. A mesma coisa com investimento, e não digo com aula propriamente dita! Pode ser aula paga com um professor particular, numa igreja ou associação que cobram apenas ajuda de custo, comprar livros talvez, vídeo-aulas, etc. Não tem dinheiro para investir no sonho, mas sai sexta à noite pra beber, fuma 2 maços de cigarro por dia, toma todo hora um refrigente aqui, compra um salgado ali, gasta com uma bobeirinha acolá… Antes que me entendam mal, não sou contra divertimento, distração, etc. Sou contra o auto – boicote, a auto – desculpa, a auto – enganação., que só serve para ‘’deixar queito’’ embaixo do tapete um sonho, para ser desempoeirado depois, mas que no fim, acumula mais e mais poeira, até encobrir o brilho do seu sonho, tornando-se mais e mais difícil de ser retomado dia após dia. A vida sempre estará em movimento, com seus afazeres e despesas, mas quem faz seu tempo e suas prioridades, é a pessoa capaz de mudar tudo e transformar sua vida: você!

Feeling e musicalidade

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Vai que dizer que isso não é feeling puro?

    Feeling significa sentimento. Ok. Logo, você imagina David Gilmour tocando ”Confortable Numb”, ou Eric Clapton tocando ”Old Love”, e você chorando, sozinho, pra ninguém ver é claro, um balde de lágrimas e dizendo ”Isso é lindo!!!”. Até ai, nada de anormal. Mas gostaria de dar um sentido mais amplo para a palavra ”feeling”. Como disse, ela significa sentimento. Em nós existe aquele tipo de sentimento, movido por um lindo solo, de comoção, que eu considero uma arte, num mundo em que um cara vê uma base lenta com alguns acordes, e esquece conceitos como pausa, articulações, e tenta enfiar 456789876543 notas num mesmo espaço. Mas há em minha opinião, uma amplitude maior nisso, e te convido a pensar comigo. Nós temos uma gama gigantesca de sentimentos, certo? Raiva, medo, euforia, aflição, fogo na pepeca, dentre outros mais. E nada mais do que normal, do que a música, uma arte tão ampla, se usar de toda essa gama, não acha? Vamos lá, defina para si mesmo, o que é uma música, ou um solo com feeling! O Black Sabbath aterrissou no mundo, tocando riffs medonhos e soturnos, e seus solos, transmitiam uma aura de terror. Ouça a canção ”Black Sabbath”, e preste atenção nisso. O Slayer nunca teve um padrão de melodia muito apurado, e nem nunca foi a intenção! Ali, reina o caos! Não cabe beleza, nem arranjos que te façam pensar numa camponesa correndo num jardim, tacando flores ao vento! Seus riffs soam como o fim do mundo, e os solos, com temática meio ”toque rápido todas as notas do braço, e faça alavancadas radicais”, chegam a dar certo nervoso. Eddie Van Halen, comeu o braço da guitarra, em técnica e pirotecnias. Já notou que mesmo assim, você consegue lembrar dos solos, e suas canções, te jogam direto para uma festa rocker, te convidando a pular feito louco? E quem nunca ouviu uma banda de metal, no qual no meio da música, num trecho do solo, tem uma virada fuderosa de bateria, ela investe numa batida de bumbo duplo veloz, e a guitarra vem junto com um riff, e outra fazendo o solo, como uma metralhadora? E você aperta mais seus olhos, sente a adrenalina subir no corpo e diz o famoso e pausado ”pu-ta que pa-riu!!!!” . Essas músicas, e visões musicais para a mesma, não possuem feeling? Não possuem carga emotiva? Cada um tem um conceito de feeling, mas restringir tal conceito, ao que você simplesmente acha, pensar que o feeling maior, é o Slash saindo da capela, com a guitarra desplugada, em ”November Rain” (sim, o solo é lindo!), é limitar sua mente, suas inspirações e sua musicalidade. Porquê não fazer uma solo rápido, ou um cheio de swing, ou até mesmo misturar tudo? Bem entrosado com a banda, e tocando com verdade, isso não é feeling??? Somos seres vivos, dotados dos mais vastos tipos de sentimento, e nada mais natural, que a música capte essa amplitude emocional. Trago abaixo, canções, que não importa se são rápidas, lentas, com solos a mil por hora, ou melódicos: o que impera aqui, é a gama de sentimentos que cada uma é capaz de trazer.
    Para fechar, deixo um ponto de vista sobre música, que na minha opinião, é igual sexo: pode ser feito sem, mas traz uma cachoeira de sensações deliciosas, quando é com sentimento, verdade, e uma boa pitada de paixão. 

Você já sorriu para seu dom hoje?

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    Por vezes, entro em contato com amigos, colegas, alunos, com suas dúvidas, medos, receios, etc, e afirmo: sou a pior pessoa para dar conselhos. Mas, posso, dentro das minhas limitações, mostrar alguns pontos de vista, dentro de uma vida, que por horas, parece ser caótica, e que nos massacra, exigindo respostas imediatas para tudo! Mas pense nas coisas mais gostosas da vida, as sensações mais agradáveis e duradouras. Elas se tornam sólidas, de forma imediata e apressada? Creio que não. Você já amou? Não estou falando do ”amor miojo”, no qual você conhece uma pessoa, três minutos após, está pronto, e dizendo que ama. Um amor concreto, fundamentado, construído, e seguro. Não há forma dele acontecer de forma imediata. Dúvidas, medos e incertezas surgirão , e tudo de incerto e duvidoso, vai sendo equilibrado, domado, expurgado, e trabalhado, em prol da construção de algo duradouro ( quando for para ser, é claro ). Agora, olhe para si, e para seu dom. Você certamente possui muita felicidade, por poder tocar guitarra, ser envolvido com música. A guitarra é como uma ”namorada”, e a música, o alimento do seu coração, que faz esse amor crescer mais e mais. E sim! Existirão receios dos mais diversos e pressões externas, e muitas vezes, a pior de todas: a pressão que você mesmo, exerce sobre si! Sim! Isso mesmo! Meio mundo pode criticar sua paixão, seu dom, mas a pessoa que mais vai se cobrar, se massacrar é você mesmo. Não digo que é fácil, pois sei o quanto a nuvem duvidosa paira sobre nossas mentes, mas há um dom, acima de tudo, e não há nada, nem ninguém, que possa arranca-lo de nós! Podem tentar apaga-lo, mas a única pessoa, que possui a chave da sala, onde fica essa chama, é você, o dono dela. Feche os olhos, e pense de forma simples, mesmo que tudo possa parecer ser tão complexo: você tem um grande presente, que muitos gostariam de ter. Você pode ter outras tarefas desgastantes, mas pode ao fim do dia, pegar sua guitarra, e tocar o que quiser nela, transmitir o sentimento que convir, e ouvir a sua música favorita junto. Se você ainda não consegue tirar o som que quer dela, veja que ótimo: você possui a linda oportunidade de aprender, e curtir cada etapa disso, e vendo nos seus avanços, o quanto é capaz! Você possui em si, a menina dos olhos, a amante música, disposta a te amar, impreterivelmente, esperando apenas, a sua atenção, para que ela possa te guiar e seguir ao seu lado, como uma linda chama, a iluminar sua vida. Cabe a você mantê-la acessa, ou querer apaga-la. Mas essa chama é eterna, e sempre estará dentro de você, esperando para ser acesa e mantida.

Mente fechada, radicalismo, e musicalidade não podem andar juntos!

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    Sou professor de guitarra a um bom tempo, encontro muita, mas muita gente, que vem com doses cavalares de radicalismo musical, sem ter os ouvidos abertos ao que a música pode oferecer de fato. Muito se fala sobre identidade musical, a digital sonora do músico, e de uma banda. Ok. Então me diga: você acha possível, criar algo original, ao menos, com elementos novos, preso a uma única vertente, ou fã(nático), por apenas uns pares de bandas? Estou cansado de ver amantes de Metallica, Steve Vai, e Dream Theater, que acham que eles são os mais fodas do mundo. Sim, eles são incríveis, mas o mundo não gira apenas em torno deles. Vou começar dando um exemplo jazzístico: Miles Davis. O mundo do jazz, é dotado ( assim como em qualquer outro), de puristas. Então, uma mente genial, como a de Miles Davis, chega em 17 de agostode 1959, e lança um dos maiores e revolucionários álbuns da história: Kind of Blue. Com seus modalismos ( conceito utilizado maciçamente por vários músicos, desde Frank Zappa até Satriani), complexas progressões de acordes  ( vi no documentário do Pink Floyd sobre o clássico álbum ‘’The Dark Side of The Moon’’, o tecladista Richard Wright, declarar que usou uma progressão de acordes do álbum do Miles Davis, na canção “ Breath” ), e improvisação, este álbum entrou na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Sim! Os 200 álbuns definitivos de ROCK! Desde a nossa bossa-nova, até o rock’ n roll foram influenciados por esse álbum. Miles Davis rompeu mais barreiras, ao incluir guitarra nos seus álbuns ( era fã confesso de Hendrix, tanto que se não fosse a morte prematura dele, teriam gravado um álbum ), criando assim, o fusion . Uma canção bem forte, que mostra esse rumo, é ‘’ Fat Time ‘’, de 81, na qual pediu para seu guitarrista, Mike Stern, soar o mais “Hendrix” possível. Com isso, Miles conseguiu a ira de certos puristas, e entrou para a história da música, revolucionando a mesma. Agora imagine, se ele tivesse mantido sua mente fechada ao jazz tradicional, e suas características? Outra área que vejo muita gente fechada, é o metal. Já vi alunos, músicos, até mesmo só ouvintes, mais chatos que uma velha resmungona de 90 anos, e com um radicalismo musical forte, como se existisse um deus metal, que ficará muito puto, se ele ouvir cançôes do U2 ou Genesis. O estilo que você ama e tem como ‘’pronto’’ hoje, já com suas ‘’regras’’, veio através de misturas, e influencias diversas. Todo mundo com mais de 2 neurônios sabe que o blues deu luz a muitos estilos ( como o jazz e o rock ). E não seria diferente no metal. ( Tonny Iommi, guitarrista do Sabbath, sabe muito bem disso). Mas isso vai muito além. Dimebag Darrel, por exemplo, com o som ultra pesado do Pantera, criou uma abordagem moderna e agressiva, sendo referência desde então. Mas para isso, ele não ouviu apenas Metallica o dia todo. Ele era fã absurdo do Kiss, e tanto ele como seus companheiros, que são Texanos, sugaram tudo que ZZ Top, e o southern rock do Lynyrd Skyrnyd podiam oferecer, além de passagens harmônicas, em que você nota que não estamos lidando com moleques que acham que metal é fazer só barulho. O hino deles, ‘’Walk’’, é baseado num groove de blues, e possui licks que beiram o country, sem deixar de ser brutal. O mesmo com Zakk Wylde: sua paixão por Allman Brothers é tamanha, que ele já gravou um álbum na linha, e… foi guitarrista da banda em um show! Além de acrescentar elementos ao fraseado, advindos do Al di Meola ( jazz fusion latino ), e melodias ao piano a lá Elton John. Sim, Zakk é fã de Elton John. Por fim, temos uma referência mais atual: Alexi Laiho, do Children of Bodom. Bodom é uma banda de Death Metal. Beleza. Mas vocês imaginam um cara assim, que que começou a tocar, porquê ama Dire Straits, e que estudou em conservatório, além de ter feito aulas de piano? Alexi Laiho pegou suas influências de Steve Vai, misturou aos licks de blues/rock do Slash, com riffs de hard rock do Europe , metal clássico do Iron, Dio, Metallica,e Slayer, e influência erudita em seus solos, criando uma paisagem sonora caótica, e ao mesmo tempo melódica…no death metal! Já vi um trecho de uma vídeoa-aula dele, em que demonstra um groove de funk, que ele usa em alguns riffs!
E cada um desses, e milhares de outros, foram sim radicais! Tão radicais, que não se prenderam num único enquadramento sonoro, regurgitando apenas, o mais do mesmo, que já foi criado. Então, se você quer ser ‘’o cara radical do metal’’, ou de qualquer outro gênero, seja radical como os músicos que eu citei, que aí eu quero ver…