Arquivo mensal: março 2015

Determinação é melhor do que motivação

Marty Friedman live show

    Li uma vez sobre isso, e achei super interessante: se você esperar estar motivado para fazer algo, estará fodido. Desculpe o palavreado, mas é bem isso. É só você lembrar de quando você era criança, e tinha que acordar cedo para ir para a escola, e ter contato com umas matérias que você nem tinha noção para que serviam na época, e o porquê de ter que estudá-las. Mas você era ”obrigado” a ir. Com certeza o conhecimento adquirido nessa fase, te deu base, para sentir-se motivado a estudar outras coisas que você tenha paixão, vocação, etc, e aqui que quero chegar: uma certa ”obrigação” foi necessária, para chegar a motivação. Vamos adaptar isso ao mundo da música, e uma questão que está no dia a dia de muita gente, que é sentir-se disposta a tocar, treinar, etc. Não vou entrar no âmbito do tempo, pois já falei em postagens anteriores, que não acredito nesse papo de não ter tempo, pois se for para trabalhar mais tempo e ganhar extra, para ir encontrar a namorada (o) e ter uma noite de amor, ou ir tomar uma cervejinha com amigos, todo mundo tem tempo. Então repito o que disse no começo: se você esperar estar motivado a treinar, está fodido. Você quer ter sua banda, tocar as músicas da sua banda favorita, fazer shows, ter uma técnica melhor, mas até chegar nisso, e ter aquela baita motivação para estudar mais e mais, demora, pois a vida não vai te ajudar muito, e sempre terá fatores que vão te cansar, te deixar mais pra baixo, etc. Então, que os seus estudos na guitarra sejam uma ”obrigação” de começo, e sempre, pois esse costume vai prevalecer. Com os avanços adquiridos, você ficará feliz e por fim motivado a dar continuidade, e quando faltar essa motivação alguns dias, o costume prevalecerá, e se você não o fizer, sentirá uma certa culpa. Solte em si, o dispositivo da iniciativa, pegue e faça! Você quer tocar Iron Maiden? Ok! Saiba que terás que dominar técnicas como hammer-on e pull-offs, além de ter uma boa palhetada para bases, então mãos a obra e vá atrás disso. Se quer improvisar muito bem, será ótimo ouvir muita coisa, pegar linguagens, testar sobre acordes, então, estude licks, escalas, articulações e teste sempre em bases, para digerir essas informações e desenvolver sua linguagem, e não ficar com um monte de licks embaixo dos dedos sem saber aplicar. O caminho para chegar a uma fração desses objetivos são longos e podem não animar muito, mas os resultados te trarão ânimo e motivação depois. Faça as coisas por você e pra você, visando resultados a médio e longo prazo. Tudo que você fez na vida, levou tempo, e demandou processos que são ”obrigatórios”: para ter uma formação mínima, você estudou anos e anos em escolas, acordando cedo em dia de chuva. Para chegar a um emprego, provavelmente você ralou um bocado em estágios, e treinamentos, que te davam vontade de matar um. Para conseguir um namoro longo, ou casamento, você passou por muito aborrecimento para ajeitar as arestas que sempre têm no convívio a dois. E provavelmente você não deixou de viver nada disso, cumpriu essas ”obrigações” até chegar aos bons ”resultados”. Então, esqueça as desculpas, pois elas nada mais servem do que alimento para futuras frustrações.

 522369_365152026909512_429593611_nkkkk      Herick Sales, músico e professor a mais de 10 anos.

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Identidade, influência e cópia

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    Vira e mexe ouço um colega, aluno, amigo, soltar que não consegue tocar um harmônico artificial como o Zakk Wylde, ter os ligados fluídos do Richie Kotzen, não consegue improvisar de forma cristalina e melancólica num blues, como Robert Cray, e por aí vai. Primeiramente, digo que bom! Exatamente! Que bom! Sou muito fã de guitarra, e não há nada mais belo do que ouvir um solo, riff, timbre, e saber na hora de quem é! Quem nunca ouviu Carlos Santana ou Slash e não achou o som familiar? Identidade! Obviamente, se eu pudesse, eu teria a pegada brutal do Gary Moore, tocaria riffs monstruosos como Tony Iommi e solaria fluído e com enorme vocabulário, como Derek Trucks e Steve Lukather, mas não dá. Da mesma forma que somos diferentes um do outro, o som que exteriorizamos será diferente. Alguém já reparou o tamanho da mão do infeliz do Zakk Wylde? A guitarra na mão dele, parece um cavaco! Ou a leveza que o Paul Gilbert toca, juntamente com a seu jeito de ser absurdamente tranquilo? Cada um de nós possuí uma estrutura física, pegada, forma de enxergar as notas e escalas pelo instrumento, sensações, intensões, perspectivas, fé, história de vida diferentes. O grande barato da música, é você poder mostrar suas influências, sua base, sua escola musical, seu ponto de vista, e à partir disso, criar seu caminho. Não adianta comprar um rack do Mesa Boogie e achar que vai soar como Metallica, ou arranjar uma telecaster, na certeza que vai soar como Roy Buchanan, ou até mesmo como disse certa vez Kiko Loureiro, estudar todos os sweeps do Frank Gambale, pois você não vai soar como ele. Todos os fatores somam-se e fazem cada indivíduo e cada músico único, desde o temperamento, estrutura física, equipamento, e influências, e se for para ouvir algo igual, a grande maioria vai querer ouvir o original, que é 99,9% das vezes melhor. Lembro-me que uma vez, um aluno me mostrou um vídeo que ele disse ter amado. Fui ver, o cara era exatamente um clone do Satriani e Steve Vai. Nem um elemento a mais, ou a menos. Porra! Pra ouvir isso, ou ouço o cd ‘’Surfing with the alien’’ ! Agora imagine, se os seus músicos de referência tivessem apenas copiado seus ídolos? Eric Clapton é fã do B.B. King, aprendeu cada nota de seu mestre, absorveu, e soa como Eric Clapton! Warren Waynes toca hoje em dia, as partes do seu ídolo, Duane Allman, na lendária banda Allman Brothers, e nem assim, soa idêntico. Cada um possui sua abordagem e identidade, e através das somas de todos os fatores, algo com um diferencial surgirá sem grandes problemas. 

John Norum: subestimado, porém genial!

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    Os anos 80, vieram com uma enxurrada de músicos competentes, que começaram a usar técnicas novas, e evolução dos equipamentos ao seu favor, e em prol da música, que mesmo sendo comercial algumas vezes, prezava pela qualidade junto disso, e John Norum, é um músico norueguês, que faz parte desse seleto grupo de guitarristas dos anos 80: técnico, porém com feeling, melódico, rápido muitas vezes, e com uma pegada muito pesada, advinda do seu amor pelo som do Gary Morre e Michael Schencker. Tendo feito parte do Europe até 1986, saiu da mesma, já de saco cheio da quantidade absurda de teclados que dominavam o som da banda, em detrimento das guitarras ( sim, ele já estava de saco cheio de ” The Final Countdown ” , e aquele solo bacana, é bem aquém do que ele é capaz… ). Assim, Norum começou sua carreira solo, com vários álbuns bons ( dentre eles, o ótimo Face The Truth, com ninguém menos que Glenn Hugles nos vocais ), e logo depois teve a chance de entrar na banda de Don Dokken, substituindo simplesmente outro mito que prometo abordar em breve: George Lynch. Recebeu também convite para substituir Michael Schencker, numa de suas bandas favoritas, o UFO. Nesse meio tempo, foi dedicando-se a sua carreira solo, e envenenando mais e mais seu som, até sua volta ao Europe em 2003. Porém, à partir daí, o Europe passou a soar diferente, colocando mais em evidência influências de Ufo, Led Zeppelin, e bandas mais modernas, como Velvet Revolver e Black Label Society, dando uma cara de ”nova” banda ao grupo.

    Note o estilo de riffs secos, com drive e distorção definidos, riffs setentistas, pitadas de blues, e principalmente, padrões velozes bem empregados, e a pegada absurda nos bends e vibratos. Te garanto que você pode sair com novas ideias depois disso!

Olha a velocidade dessa porra!!!!!!!!!!

E na volta com o Europe ( esqueça pop com teclados anos 80… )

Solos “completos” e equilibrados

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Esse cidadão não é muito humano…

    Qual seria a receita para um solo perfeito e completo? Tenho uma notícia um pouco triste, mas eu não possuo a resposta. Nem ninguém. O conceito de completo muda de pessoa para pessoa, situação para situação, mas vou me ater a quantidade de elementos bem equilibrados. A guitarra é dotada de diversas técnicas de interpretação, e ”truques”, que geram sons únicos e que bem trabalhados, se a música der abertura para isso ( David Gilmour fez solos incríveis, e creio que sequências de palhetadas alternadas e tappings, estragariam aquelas obras de arte ), geram solos incríveis!

A receita, ninguém possui, mas vamos nos mirar nos exemplos, e organizar umas ideias:

Melodia: seu solo terá uma melodia principal, que vai permear o começo do solo, ou o meio? Isso pode ser um elemento marcante para seu solo;

Bends e vibratos: considero basicamente, as 2 técnicas que mais caracterizam a guitarra, e com características vocais. Faze-las meia boca, é comprar ingresso para ter um solo zoado;

Escalas: aqui é uma opção pessoal, que deve combinar com a sonoridade buscada. Você quer um som mais pentatônico? Mais tenso e dark? Mais sensual? Vai gastar um escala na mesma região ( Angus Young faz solos épicos assim, e é difícil também, não se engane!!! ), ou explorar o braço todo de cima a baixo?

Hammer-ons, pull-offs: desde ligados simples de passagem em melodias, licks, ou passagens intricadas e rápidas, podem ser uma ótima ferramenta para fluidez;

Palhetada alternada: mesma coisa: desde passagens simples, até corridas para chegar a outra parte, até fritações extremas, uma técnica muito bem vinda, se bem usada, e feita com precisão;

Tapping: Excelente para gerar intervalos maiores, com a sensação de fluidez vinda dos ligados;

Elementos de outros estilos: isso não é regra, mas diz respeito ao vocabulário. Que tal um lick com ar mais blues, funk, ou fusion, com notas outside? Isso pode gerar um efeito surpresa em seu solo, e torná-la único;

Pronúncia: note que a pronúncia das notas que você fará, podem variar, e gerar bons resultados, caso combinem com a música. O blues, possue um sotaque diferente diferente do metal, que é diferente do jazz. A mesma escala ou passagem, vai soar de forma diferente no contexto de outro estilo, porém, como citei acima, nada impede de você ”misturar” um pouco!

Alavancadas: ótimo recurso, mas que na minha opinião, deve ser usado com pudor, pra não ficar aquela guerra de notas flutuando na sua fuça…

Pausas: seu solo pode respirar amiguinho! Não precisa correr o solo todo, como se fosse tirar a mãe da forca! Dica do Dollynho!

Velocidade: vamos ser sinceros: um lick, ou passagem veloz, bem usados, dão um up fodido na música, mas como digo, vale o bom senso;

Pegada: não descuide disso jamais! Tocar as notas certas, com pegada errada, caga tudo!

Improvise: deixar um espaço para improvisar num solo, pode ajudar a deixa-lo sempre ”novo”, e trazer ideias.

    Por fim, trago exemplos de solos equilibrados, misturando vários elementos, tornando-os quase outra canção dentro de uma música:

Esse é mestre, nem tem muito o que comentar… apenas note, como ele passeia pelas notas, com sonoridades eruditas, melodias belas, e velocidade na medida certa.

Aqui, John Sykes dá uma aula, mesclando todas aquelas técnicas fresquinhas na década de 80…que solo bonito, puta que pariu!

Steve Lukather é um monstro…olha esse solo que na minha opinião, é tão bom quanto o original.

Esse solo aqui, se mudar uma nota, periga você tomar um tiro. Note como ele é basicamente outra canção dentro da mesma.

Pra fechar, trago um dos meus solos favoritos do Petrucci, em que ele faz de tudo: tapping, ligados, palheta, bends com licks mais blues rock, passagem funky, e alavancadas!

Aqui tem só ele fazendo o solo, pra você tão putinho vendo, quanto eu…

Rock e religião

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     Agora, o bicho pega…. quem nunca passou pela situação chata, de um dito ”cristão”, que vem pegar no seu pé, por você ouvir rock, por ir em shows, usar a blusa de uma banda, por usar brinco, ter alguma tatuagem, por respirar, se duvidar, e com a simples explicação: é do demônio. Ponto. Esses dias, me deparei com um texto, um trabalho, com tom acadêmico, de um dito cristão, falando sobre a origem do rock, e os malefícios que ele pode trazer para a juventude. Muito interessante. Esse prega bem o Evangelho, e está bem preocupado em mostrar Jesus, pois ele falou mais do coisa ruim, do que qualquer outra coisa. Entender o conceito artístico de uma música, álbum, filme, peça de teatro, seja o que for, é complicado, demanda certo tempo, estudo na obra, do contexto, então….muito mais fácil dizer que é do demônio. Simples! Sabe a foto acima? É do James Hetfield, do Metallica, numa foto, com luz vermelha em cima. Já ouvi, acreditem, que essa luz vermelha, era possessão demoníaca. Então, vamos lá: na década de 50, a juventude, não possuía voz ativa, algo que expressasse o que eles sentiam, daí surgiu o rock, dizendo o que ninguém dizia, o que ninguém queria admitir, o que ninguém queria ver. Certa vez, um teólogo falou comigo, sobre o conceito religioso, e das famílias, nos anos 50, quando surgiu o rock… a igreja, e o conservadorismo das famílias da época, bloqueavam o que os jovens sentiam, o que pensavam, o que queriam. Logo, se para eles, a ideia passada ( erroneamente, diga-se de passagem ), sobre Deus, significava ”prisão”, anulação, qual seria o contrario disso tudo? Primeiro ponto. Ok. Vamos em frente… a música é um veiculo, onde expressamos nossos sentimentos, o que achamos, e ninguém é obrigado a achar o que o outro acha, pensar como o outro. O limite disso, é o respeito a ideias distintas. Não me ofende nem um pouco, o Slayer cantar, que não acredita em Deus, que ele não existe. Esse limite de opinião, vira zona, à partir do momento, que você desrespeita a opinião, crença, conceitos do próximo. Há uma grande diferença entre eles cantarem o que cantam, e o Behemoth, ( banda de black metal ) ofender Deus, e rasgar bíblias no palco. Pode ser encenação, porém , já entra na seara do desrespeito à opinião do próximo. ”Ah, mas ouvir rock é errado, pecado !” , diriam alguns… legal! Imagine comigo: um cara como esse, trabalha em alguma empresa, ganha bem, e no emprego, tem um ateu, ou então, ou tem um chefe que também é certinho, diz que ama a Deus, mas sonega, rouba, etc. Porque então, ele não sai da empresa? Seria o ”correto”, não? Por último , gostaria de falar, sobre um papo, que tive com um coordenador de crisma, formado em artes, católico, assim como eu, e sua opinião sobre Slayer, Black Sabbath e afins: ”acho muito legal a temática deles, a interpretação no palco, com tom de maléfico, de filme terror”, e mais a frente, falando sobre essa interpretação, foi comentado ”… não entendo qual o problema disso… na Paixão de Cristo, possui uma pessoa que interpreta o demônio de fato…”. Nessas horas, podemos notar como o estudo, abre os olhos. Eu, acredito em Deus. Ponto. Não é porque Jimmy Page é todo místico, comprou até o castelo de Aleister Crowley ( sim, o famoso Mr. Crowley, da canção ), que eu vou deixar de ouvir Led Zeppelin, e ter um amor grande pela musicalidade deles, e admiração pelo jeito de tocar dele, e nem acho que algo de ruim, pode sair de dentro de um cd, porque o Iron Maiden, cantou ”666, the number of the beast”. Parece que certas pessoas ditas cristãs, dão mais poder a coisas ruins, do que às boas, que elas deveriam pregar. A imagem, ajuda a vender! Se você vê um cd do Sepultura, com um ”love” no meio do título, você achará que o cd é bom? Mas se eles botarem ”hell” , ”demon”, ou algo do gênero, já cai uma baba do canto da boca, e pensamos: ”porra, esse deve ser pesado pra caralho!”. Além de essas bandas não serem burras! Elas nunca vão ofender, xingar, nada religioso. Criticar, criar polêmica, ou questionar o que ninguém tem coragem de perguntar, causa polêmica, logo, chama a atenção. Ofender bruscamente ( leia-se black metal, e afins ), causa repulsa, e problemas, garantia de ”não-sucesso comercial”. Lembro-me de uma ex-aluna, que participava de várias atividades da igreja evangélica dela, e com 15 anos, possuía a maturidade de entender, e disse: ”gente… o rock é assim, somente para não perder a cara de mal dele”. Acho que é exatamente isso que falta em certas pessoas: maturidade para procurar entender, antes de falar ( ah….esqueci, é mais fácil dizer que é maléfico ) , e que Deus deve estar bem mais preocupado, se você respeita sua esposa/namorada, se você é educado com os outros, se você ajuda ao próximo, se você é empenhado no seu trabalho, faz com amor, busca usar o dom que você tem com qualidade, porque apontar o dedo na cara dos outros, ”dizendo o que é errado” é mole. Quero ver fazer 10% do que Jesus mostrou ( conceitos de bondade, que vão além do cristianismo ), e mostrar através dos atos, Seus ensinamentos.