Arquivo mensal: julho 2015

Você realmente ouve música?

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Tio Bill Clinton curtindo um som…

    Chega a ser contraditório e estranho perguntar isso para alguém que se dedica à música, estudando, e até mesmo trabalhando com a mesma: você realmente ouve música? Por vezes me deparo com alunos que ao estudarem uma música, dizem que estão com dificuldade, e deixam escapar que não ouviram muito a música, e até mesmo uns que dizem não ouvir música em casa para não atrapalhar alguém, não incomodar, etc. Então, pense comigo: imagine um grande chefe de cozinha, que faz receitas incríveis, ok? Ele antes de criar suas próprias receitas, precisou observar outras, experimentar, conhecer sabores, interiorizar conhecimentos, a ponto de ter esses elementos como ”seus”, e à partir daí, elaborar suas misturas e receitas. O critério de observação é necessário para absorver bem cada elemento, seja lá sobre qual assunto você estude. Então, como tocar uma música bem, se você não absorveu bem seus elementos e ”sabores”? Como estudar bem cada parte, se você não interiorizou bem a pegada, feeling da mesma, passagens, duração de acordes, dinâmicas, etc? Lembro-me de a pouco tempo, estudar a música ”Moonchild”, do Iron Maiden, contida no álbum Seventh Son of a Seventh Son. Eu ouço essa canção desde meus 17 anos, mas mesmo assim, ao estudá-la, precisei ouvir inúmeras vezes para absorver detalhes, melodias, etc. Haviam ali algumas notas no solo, e no arranjo geral, por exemplo, que eu nunca tinha reparado com tanta clareza. Outro exemplo legal que reli esses dias, foi do Kiko Loureiro, quando tocou com a cantora Tarja Turunen, em que ele pegou as músicas, fez um mapa das estruturas, e as ouviu incessantemente, como se fosse o que ele ”mais amasse na vida”. O mesmo digo para compor! Siga o mesmo raciocínio do chefe de cozinha: como compor suas ”receitas”, se você não estudou com calma outras? Como ter ideias de estruturas, mudanças de tempo, inspirações para melodia, se você ouve música superficialmente? Pegue os álbuns que te inspiram, as canções que mexem mais com você, e ouça analisando cada detalhe: como o groove se porta com o riff, e vice-versa, dinâmicas empregadas, a pegada dela, quantas camadas de guitarra você consegue ouvir, quantas vezes se repetem tais trechos ( introdução, estrofes, refrão, interlúdio, etc ), como que funciona o solo nela e como ele é amarrado ( aliás, ajuda muito a ter ideias para improviso ).

    Não deixe a música passar batida, sendo apenas um mero fundo musical para suas atividades. Permita-se curti-la, apreciar cada detalhe, e viajar com a mesma, afim não só de estudar, claro, mas também de se emocionar, sentir-se parte dela e alimentar suas ideias e inspirações.

O que eu pude aprender com Dave Grohl

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    Não é necessário ser fã do Dave Grohl para conhecer sua história. O cara foi baterista do Nirvana, e após a morte de Kurt Cobain, passou a liderar o Foo Fighters, que hoje em dia lota estádios e possui mais apuro técnico que sua antiga banda, e que só faz evoluir em termos sonoros. Mas não quero me ater a isso exatamente. Quero mostrar alguns pontos interessantes da personalidade e forma de agir do mesmo. Dave é considerado um dos músicos mais simpáticos do planeta, tendo uma incrível rede de networking. Para quem não conhece, essa é uma expressão que representa uma rede de contatos, às pessoas que um indivíduo conhece e aos relacionamentos pessoais, comerciais e profissionais que mantém com elas. E esse jeitão dele, por incrível que pareça, teve influência de Dimebag Darrel, do Pantera: ”Essa hospitalidade que hoje em dia a gente tenta ter no backstage veio dessa experiência com o Pantera (…) Depois desse dia, eu estava tipo “de agora em diante, todo mundo pode chegar na nossa sala, não importa se é a Britney Spears”. Sempre que eu tô em um festival, a primeira coisa que eu faço é pegar uma garrafa de whisky e ir bater de porta em porta pra ver quem são os caras mais engraçados. Você ficaria surpreso em saber quem são os verdadeiros malucos” ( Fonte: Whiplash.net ). Pode parecer uma bobeira, mas com certeza, isso trouxe um leque importante de mais oportunidades a Grohl, pois ele não ficou ”limitado” na sua área de conforto, ele tinha conhecimento de várias pessoas, e muitas vezes, pessoas certas, e mantinha um comportamento acessível, não se metendo em confusões que manchassem sua imagem, fator que com certeza favoreceu a entrada e o aparecimento de milhares de projetos que ele participa, e faz bem. Além disso, ele mantém um contato e respeito enorme aos seus ”clientes”: o público. Que artista você conhece, que quebra uma perna, pega o microfone, e avisa do ocorrido, deixa os músicos da banda continuarem o show, vai ao hospital, e ainda volta depois? Ele não teria necessidade de fazer isso, mas haviam pessoas ali, que com certeza, trabalharam bastante para pagarem tal ingresso, e vê-los.

    Tais atitudes, mostram os motivos de Dave Grohl ser tão querido, e possuir uma carreira de sucesso, no qual é bem aceito em diversos ambientes. Da próxima vez que quiser pegar sua guitarra, não para fazer boa música, mas para querer se mostrar ”melhor”, ou se achando o ”fodão”, lembre-se desses conceitos e exemplos, e como atitudes inteligentes, cordialidade e os contatos certos, podem impulsionar mais e mais o seu talento e carreira.

Frustrações de um iniciante

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    O dedo que dói, a mão que não obedece o posicionamento adequado, os dedos que não apertam as cordas da forma devidamente correta, soando sujo por vezes, e que às vezes abafam outras cordas. O pulso que sem querer é forçado, a dor que vem de companhia para desanimar, e tudo isso, alimentando a ansiedade de querer tudo na hora. A dificuldade que desanima e alimenta os pensamentos destrutivos, que gritam em sua mente dizendo que você não leva jeito, não é capaz, não tem dom, e tantos outros pensamentos que não valem de nada. O novo! O novo amedronta, causa euforia. Traz na bagagem o desejo de conseguir e se aventurar numa nova empreitada, e o frio da incerteza que toma conta da alma, quando os obstáculos vão sendo descobertos. Não há vitória sem esforço, nem sem luta, e sem amadurecimento através do contato com o instrumento, com o estudo da música. Lembre do seu dia até agora: você levantou e andou, seja muito, indo trabalhar, ou em casa mesmo, apenas indo até a cozinha pegar um café. O ato de caminhar, é fruto de várias tentativas que você teve quando bebê, começando a engatinhar, para depois aos poucos, ameaçar levantar-se. Vários tombos foram necessários até que você firmasse seu corpo riste, e mesmo assim, foi necessário apoiar-se em algo, ou alguém segurou sua mão, para que tivesse mais segurança. Então vieram os primeiros passos sozinhos, e uma leva de tombos, até conseguir acostumar-se e ficar plenamente equilibrado, e aí sim, começar a andar com plena segurança, até que esse ato hoje em dia tornou-se automático e fácil. Agora, imagine-se quando bebê, se você tivesse consciência de todas essas dificuldades, e dos tombos que levaria, teria deixado pra lá, ou desistido? Você se vê, rastejando ou engatinhando pela casa, ou na rua, para pegar algo, sem andar? A mosca da insegurança sempre estará fazendo barulho em seu ouvido, seja em maior ou menor volume, mas quem determina o sucesso de um aprendizado novo, é você. Você é dono dessa verdade, e o que disser para si, há de funcionar como regra em seus planos,

Inovação, capacitação e divertimento!

Jeff Beck

Carreira exemplar! Inovação e talento!

    Um serviço é um atividade oferecida para venda, ou agregada a um produto, e é muito importante compatibilizar o conhecimento de negócios, com as oportunidades existentes no mercado. Como disse em outros posts, ao fazer um show, você presta um serviço, e ao vender seu material ( cd, camisa, etc ), há um produto agregado, e saber avaliar o mercado da música a sua volta, torna-se de grande valia para buscar maiores êxitos. Um músico de extremo tino visionário, é Jeff Beck, que soube avaliar o que rolava no mercado em cada época, e foi incorporando em seu som, sem se descaracterizar, além de ir melhorando mais e mais tecnicamente. Na virada dos anos 60 para 70, seu som era totalmente voltado para o blues rock característico da época, como pode notar abaixo:

    Já no meio dos anos 70, buscando vôos maiores, incorporou ao seu som o fusion, porém, manteve sua pegada blues, tornando-se um dos ícones do gênero que começava na época:

    E chegou ao cúmulo para alguns, de no fim dos anos 90, com pé nos anos 2000, incorporar a música eletrônica no seu currículo:

    Com isso, podemos fazer um paralelo com o empreendedorismo, sobre como se firmar e conseguir sucesso nos negócios, como vemos abaixo, adaptado de ” O Guia PEGN – Pequenas Empresas & Grandes Negócios ”.

  • Excelência: considerar-se um ”concorrente”, tentando ser melhor a cada dia;
  • Cooperação: fazer parcerias, e juntar esforços com outras pessoas;
  • Apoio da família e amigos: essa parte é complicada, mas sempre ajuda;
  • Criatividade e inovação: questione sempre aquilo que faz, procure sempre melhorar e inovar;
  • Foco no cliente: claro que sua música precisa agradar primeiro você, porém, é bom ouvir seus fãs, quem curte seu som;
  • Visibilidade: divulgue-se! Apenas tocar bem não adianta!
  • Capacitação e conhecimento: invista muito nisso para você, e cobre de sua banda!
  • Autonomia: busque soluções próprias. Não espere que alguém venha resolver tudo para você;
  • Divertimento: faça disso, da sua banda, da sua música, seu divertimento, para que tudo seja verdadeiro, e menos cansativo.

    Complete a uma pesquisa dos artistas que você admira, e suas vitórias, e me diz depois se Jeff Beck, intencionalmente ou não, não trouxe para si muito bem os conceitos de inovação, capacitação e divertimento. O próprio disse, em entrevista, que ao ver Hendrix tocar, sacou que teria que ter um jeito de tocar único para se destacar. Deixo abaixo um vídeo que acho que comprova tudo isso. Ser gênio ajuda, mas não custa se espelhar, né?

Herick Sales Guitar Festival 2015.1

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    É interessante, como um evento altamente simples, descompromissado até certo ponto, é capaz de gerar expectativas grandes no coração de cada um, e um nervosismo típico de grandes apresentações. Talvez pelo fato de ser na frente de outras pessoas que também tocam, ou por ter que mostrar o conteúdo aprendido em aula, uma tensão maior seja gerada. Cada um teve seus problemas a serem superados, e esforço aplicado, tendo que conciliar trabalho, estudos, e treino pesado. Pude abrir, com uma das minhas canções favoritas do Iron Maiden , ”Moonchild”, dando em seguida, a vez aos donos da festa brilharem: os alunos! A leve brincadeira em homenagem ao Kiss tomou forma com três canções, cada uma executada por um aluno: ”Hard Luck Woman” ( executada por Clayton, que correu contra o tempo, e treinava 3 horas por dia, mesmo trabalhando, e Caudo ), ”Love Gun” ( executada com maestria por Anderson ) e ”Rock And Roll All Nite” ( um fechamento belíssimo feito pelo ”mascote” Felipe Nunes ). Tivemos esse ano, até mesmo a participação de um ilustre tecladista, Caudo Feitosa, que ao lado Roberto e Anderson, executou, com direito a solo de teclado, a música ”Stormbringer”, do Deep Purple. Um desfile de boas canções, e performances vieram, interpretadas com garra e suor por cada um: ”Black Night”, do Deep Purple ( Lucas Duarte ), ”Now I’m Here, do Queen ( Nathan, mito em forma de guri ), ”Black” do Pearl Jam ( Juliana diva e Patrick ), ”Man in the box”, do Alice in Chains ( Finha, Victor e Anselmo ), ”Walking by Myself”, do Gary Moore ( Pedro Lopes, nada melhor do que uma do Gary para treinar pegada, e ficou ótima! ), ”Countdown’s Begun”, Do Ozzy ( Ramon Corrêa, que chegou de última hora, mas a tempo de tocar, e ficou muito bom! ), além de belas jams e improvisos ótimos, com palhinha de última hora dos alunos mais ”cascudos”, leia-se Alan, Lucas Rodrigues e Lucas Cavaleiro! Gostaria de salientar a apresentação do grande ”menino caqui” Lucas Marques, que fez um belo improviso, em que eu tive a honra de improvisar junto, além de poder fazer uma dobra em terças, gerando muitos aplausos, além da chance de tocar ”Power” do Helloween com o mesmo, fazendo dobras e o solo junto. É muito bom ver uma aluno que veio do zero, chegar nessa nível.

     Não há melhor, ou pior nesse evento. É uma brincadeira, um ensaio para o futuro, uma confraternização em celebração a música, e num dia em que 40 à 50 pessoas vieram ver esse festival, traz a certeza de que ainda há pessoas que gostam de ouvir boa música, e boas guitarras sendo executadas.

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Obs: fica aqui também  minha homenagem a Matheus e Thuanny, que por problemas pessoais, não puderam tocar, mas ambos são vencedores, e seus esforços não foram em vão!

E o medo de uma apresentação: o que fazer com ele?

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    “Será que estou preparado? Será que vou errar? Será que ficarei muito nervoso na hora? Vou fazer tudo errado! Estou errado agora, não sou bom o suficiente, e na hora vou estragar tudo!” Esses e outros milhares de questionamentos e falsas certezas incomodam a todos, em maior ou menor escala no momento auge da vida de um músico: uma apresentação. Desde músico profissional, até amador, ao executar seja uma música apenas, uma participação, um show, qualquer situação que seja necessário se expor musicalmente e ser ”avaliado” pela platéia, sentem apreensão, afinal, embora não ganhe nota, é nesse momento em que mostra-se a todos o quanto se estudou, treinou, se dedicou, e como faz isso virar música. A dúvida há sempre de existir, pois creio que ela alimenta a busca pela melhora, já que quem se acha bom o suficiente, amarra em si cordas que o travam de seguir. Mas é necessário o controle da ansiedade e insegurança. Estuda-se muito para isso: para domar esses sentimentos de insegurança, e fazer os resultados bons, vindos de seu empenho, brilharem. Não há outro caminho, e outra alternativa: se você treinou e se dedicou, pôs em prática o que foi ensinado em aula ( ou que você pesquisou sozinho ), e souber dominar o pânico, sua música há de se destacar. Todos são capazes! Repense a sua história: Quantas coisas você precisou abrir mão para comprar sua guitarra? Quantas vezes você sentiu dores nos dedos, de tanto tocar? Quantas vezes você treinou com afinco a mesma passagem, o mesmo riff, o mesmo solo, buscando perfeição? Quantas vezes, você deixou de sair para passear, ou dormiu tarde, para se entregar de corpo e alma à sua música e arte? Se nesse momento você respondeu a si mesmo que muitas vezes, e que já perdeu as contas, você há de estar no caminho certo, e tenha a certeza de que a música devolve para ti, exatamente o que você deu a ela, em mesma força e intensidade.

522369_365152026909512_429593611_nkkkk    Herick Sales é músico e professor de guitarra e violão a 11 anos.