Arquivo mensal: setembro 2015

A guitarra e os comportamentos tóxicos do aprendizado

10565158_708169455886740_8220959662324292384_n

    A autoestima às vezes vem boicotar a porra toda, e quem toca guitarra sabe bem disso. Vem desânimo, achismos péssimos, que na maioria das vezes não possuem um pingo de verdade, e se valem da nossa mente e nossos pensamentos. Se forem pensamentos positivos, melhores resultados bons, se forem negativos, pior fica tudo. Então, de uma forma simples e direta, vou enumerar alguns pensamentos destrutivos que todo guitarrista tem uma hora ou outra, e você confere se já não teve um desses:

  • ‘‘Meus dedos não são rápidos, não vou conseguir tocar isso mais rápido ’’ : Seus dedos podem não ser rápidos, igual aos do Paul Gilbert, mas treino está aí para isso. Nem por isso, você não pode fazer sua música! Necessário disciplina e dedicação para ir galgando etapas. Ou você acha que ele nasceu, saindo da mamãe dele, e já foi gritando: ‘‘ Buááááá! Buááá! Quero voltar! Toma um padrão de palhetada do Al Di Meola, buáááá! ’’
  • “Meus dedos e pulsos doem, não vou conseguir tocar essa merda ’’ : a ponta do dedo vai doer mesmo, até criar calo, e se você fizer bend o dia inteiro tocando Stevie Ray Vaughan, vai doer também, mas pare de frescura, né? Você faz muito mais coisas que deixam um dolorido, e você nem liga… ( ͡° ͜ʖ ͡°). Quanto ao pulso, aí sim, é necessário cuidado! Não adianta querer botar força pra querer acelerar as coisas, e um posicionamento errado, que além de empatar sua vida, poderá trazer várias ‘‘ites” no futuro.
  • “Minha guitarra é uma droga! ’’: Antes uma ruim, do que nenhuma, e já cansei de falar e mostrar exemplos de músicos, tirando sons incríveis de instrumentos não tão bons assim. E se está ruim, vai juntando para comprar outra depois. Garanto que se você economizar aquele dinheiro que você gasta todo final de semana para beber com a galera, começará a ter uma economia a ser usada nisso.
  • “Ah, estou cheio de problemas, aí fica difícil me dedicar”: acho essa a desculpa mais esfarrapada que existe, junto com ”não tenho tempo”. Se você esperar os problemas passarem, você vai morrer, os vermes vão comer seus olhos, e você não terá feito nada. Sua mãe vai reclamar no seu ouvido ( adapte para esposa/ marido/ namorado/ namorada ) sempre, trará problemas da casa, seu parente mala vai arrumar mais treta para você, infelizmente doenças existem e temos que lutar contra, decepções irão magoar a alma, mas vai esperar a vida ser um lindo jardim florido, para fazer o que quer e precisa?
  • “Não tenho banda, aí desanima…”: Se você não estudar para tocar melhor sempre, aí que não vai ter mesmo. A não ser que queria fazer cover de Nirvana, e mesmo assim, é preciso tocar as bases certas e com atitude.
  • “Minha família não me apoia, nem minha namorada/esposa”: Mãe e pai vão querer sua felicidade. Faça seu caminho e não desista, pois uma hora ou outra, eles te verão felizes e vão notar que é isso que te completa. Namorada/esposa você troca.

    Lógico que há um tom de humor aqui, mas grave essas frases, e toda vez que algo parecido vier em sua mente, lance pensamentos positivos sobre você mesmo e busque reverter as adversidades, pois elas nós passamos por cima, já um dom, não.

Anúncios

George Lynch: técnica e musicalidade no hard rock anos 80.

georgelynch400

    Aqui vai um caso à parte, no mundo da guitarra: George Lynch! Autodidata, que diz não visualizar a escala da guitarra, com os desenhos que nós mortais conhecemos, e tendo como influências Jimi Hendrix, Jeff Beck, Michael Schenker e Al Di Meola, Lynch veio no mesmo furacão musical capitaneado por Eddie Van Halen ( que também foi sua influência ), e Randy Roads ( tanto que quase entrou para banda do Ozzy, 2 vezes: antes do próprio Randy, e depois de sua morte ). Esse americano de 61 anos, que já foi classificado como # 47 na matéria “100 maiores guitarristas de todos os tempos” pela revista Guitar Word, criou parte dos melhores arranjos de guitarra dos anos 80, do chamado ”hard rock farofa”, junto de sua banda Dokken, e em sua carreira solo, com licks absurdamente técnicos, e melodias entrelaçadas, tudo envolto por um timbre marcante, e muito bom gosto. O que é notório, é sua habilidade em misturar técnicas equilibradas em seus solos, dosando ligados, palhetadas, tapping e melodias, tudo muito bem amarrado, fora riffs com aquele groove e swing hard rock, brincando com as vozes e inversões dos acordes. Muitos podem torcer o nariz, por ele ter feito parte de umas das grandes bandas de hard farofa dos anos 80, mas se Juninho Afram, Jerry Cantrell ( Alice in Chains ) e até Zakk Wylde, o elogiam, qualquer um que fale mal dele, provavelmente, não gosta de guitarra!

A genialidade de Brian May

1470145_538419829582730_1370855866_n

    Muitos que não davam lá muita bola para o Queen e o grande Brian May, ficaram encantados com o show do dia 18, no Rock In Rio. Que se exploda se Adam Lambert é um garoto (muito talentoso, sejamos francos), que destoa um pouco da banda. Foi um lindo tributo e celebração a obra da banda. Muitos alunos e amigos ficaram encantados com a alegria de Roger Taylor e de Brian, além de espantados com sua pegada e forma de manusear a guitarra. Só tenho uma coisa a dizer sobre ele: gênio. Um dos poucos que podem receber esse adjetivo, com pleno merecimento, sem ser mero ”puxasaquismo”. Juntamente com o Queen, Brian May, escreveu as mais belas linhas da música contemporânea, com um ecletismo sobrenatural, mas nunca deixando de mostrar belos arranjos de guitarra. Gostaria de ressaltar, não só detalhes, como o de que ele e seu pai, construíram sua própria guitarra, a Red Special, com madeira de uma antiga lareira, com a ponte foi feita à mão, com componentes de motocicleta e uma agulha de tricô, sendo essa guitarra, a primeira a ser fabricada com as tão amadas 24 casas (no total, ela não custou nem oito libras, cerca de 40 reais), fora o fato dele tocar com uma moeda no lugar da palheta. Há detalhes maiores, por de traz das mãos e obra desse gênio (sim! Repito gênio! ). Com o Queen, Brian May deu alicerces mais do que seguros para o desenvolvimento do glam rock (lembram das bandas dos anos 80, com roupas espalhafatosas?), hard/rock, heavy metal e do rock progressivo, misturando os vocais harmonizados do Yes, com o peso e pancadaria de um Led Zeppelin ou um Black Sabbath. Seu timbre, sua pegada (ouça a violência de seus bends) e sua visão, em misturar conceitos eruditos, e a sobreposição de camadas de guitarra, tornou-se mitológica, influenciando quase todos que vieram depois, e arrancando elogios de quem veio antes: Joe Satriani, Slash, Nuno Bettencourt, Edu Ardanuy, Jeff Loomis, Tony Iommi (além de serem grandes amigos, Iommi credita a inspiração para a gravação de canções mais ousadas, no clássico do Sabbath ”Sabotage”, ao disco ”A Night at the Opera”, do Queen), e uma infinidade de outros músicos. Até mesmo, o carrancudo e soberbo Malmsteen, já assumiu em entrevista, que em se tratando de gravações de camadas de guitarra, Brain May, é sua maior referência. Não há muito mais o que falar, e explicar….posso dizer, como experiência pessoal, que álbuns como ”Queen II”, ”Live Killers” (pra mim, o melhor ao vivo da historia, depois do ”Made in Japan”, do Deep Purple), ”The Game”, ”The miracle” e ”Innuendo”, fora os shows em DVD, tocavam incessantemente em meus momentos de estudo, na tentativa de absorver elementos de sua musicalidade. Por fim, trago aqui uns vídeos, não os mais conhecidos, mas algumas surpresas daquela, que é considerada a primeira banda a compor um thrash metal (a canção Stone Cold Crazy, que ganhou cover do Metallica), e compôs ”Bohemian Rhapsody”, considerada ”apenas” a música do século.

O eterno tributo a Randy Rhoads

tumblr_m5hpimulbg1qgirnno1_1280

    Ainda tenho a memória fresca de quando, lá pelos meus 15 anos, pude ouvir pela primeira vez o som que Randy Roads era capaz de tirar de sua guitarra. Em uma visita a casa de vizinhos, pude ver em seus acervos, milhares de fitas K7 ( alguém lembra disso? ), e de uma delas, surgiu uma com o nome de ”Ozzy Osbourne- Randy Roads Tribute”, e com um sorriso no rosto, um deles fez questão de colocar para me mostrar, para que eu ouvisse o quanto absurdo era essa tal de Randy. A introdução apoteótica do show, que deu margem ao primeiro riff, o da estupenda ”I Don’t Know”, foi uma das coisas mais absurdas que já ouvi, a ponto de me arrepiar só de lembrar. Um riff forte, com timbre pesadíssimo, e seguido de um comentário de um desses vizinhos: ”olha só o que ele vai fazer! Parece que ele tira as cordas da guitarra, sacode, e bota no lugar!”. Hoje sei que são ligados sobre o acorde de Am com cordas soltas, e alguns harmônicos, mas nunca tinha escutado algo assim antes! Os bends fortes, altos e gritados, vibratos, e interações com dedilhados advindos de seus estudos eruditos, me deixaram consternados. Na sequência, o anúncio de Ozzy Osbourne para ”Crazy Train”, me arrepiaram mais uma vez, até a entrada do solo inicial. Puta que pariu, o que era aquilo? O que eram aqueles bends com harmônicos, e riff tenso? Após isso ela desaguou em meus ouvidos como uma das canções mais alegres e legais que já ouvi, e em seu solo, eu reconheci aquilo que quis pra mim para a vida toda: ser um guitarrista! A forma solta com que Randy tocava, usando-se de ligados, e intervenções durante toda a canção, com licks que conectavam tudo de forma perfeita, sem soar como exercícios tacados, me fizeram entender a que patamar a técnica poderia chegar, sem denegrir ou manchar a música, e como tudo isso poderia ser usado para alavancar mais ainda a carga emotiva das canções. Desde ”Believer”, com riff soturno, que não deve em nada a Tony Iommi, ao solo incrivelmente desenhado de “Mr Crowley”, passando pela sequência erudita de tappings em ”Flying High Again”, tudo, eu digo tudo, soava perfeito: solto como um improviso, porém milimetricamente encaixado, como a mais apurada canção erudita. Suas palhetadas no momento solo, me deixaram apalermado! Sim, eu já tinha escutado outros palhetando de forma virtuosa, mas aquela pegada, que soava limpa e ao mesmo tempo ”raspada”, com um punch rocker, era inédito para mim.

512-aOrh--L

    Poderia dissecar com detalhes cada canção, e o que senti em cada uma, mas deixo para cada um experimentar em si as sensações de cada uma dessas pérolas, e a certeza de que a forma solta e técnica com que Randy tocava, só encontra paralelo com ícones como Hendrix e Eddie Van Halen, e com certeza, sem ele não teríamos músicos como Paul Gilbert, Zakk Wylde, Dimmebag Darrel, Alexi Laiho, Kiko Loureiro, dentre tantos outros.

Indústria musical, mudanças, e o que pude aprender com a novo lançamento do Iron Maiden

1441672746_01

    Não adianta. Os tempos mudaram, e isso é um fato! Grande parte das pessoas hoje baixa os álbuns que mais gosta, quando não baixa apenas as canções que mais curte, e não há nada que se possa fazer para mudar isso. Há sim, aqueles que ainda esperam o dia do lançamento de um álbum, vão a loja, compram e tudo mais, mas quando você vai comprar uma roupa o que você costuma fazer antes? Você só bate o olho na estampa e compra? Muito provavelmente você experimenta para ver se cai bem em você, e se você realmente gosta. Claro que em se tratando de arte, nada é muito imediato, você precisa ”degustar” um pouco a obra, para entender o conceito, mas eu particularmente não vejo problema em ter essa ”prova” antes. Quem nunca comprou um álbum e sentiu-se decepcionado, ou enganado? Lembro-me bem da época em que falaram horrores do lançamento de Metallica, que seria pesado, volta às origens, etc, e eles vieram com St. Anger. Então, particularmente, não vejo mal algum em você ouvir o álbum antes de comprar, e antenados nesse tipo de comportamento, o Iron Maiden entrou nessa ”brincadeirinha” de vazar o álbum dias antes do lançamento oficial. Ah, vamos lá, você acredita que isso é sem querer, e o artista não sabe? Sabe de nada, inocente!!! O ser humano é um bichinho que adora ter vantagem, então, numa situação como essa, ele vai lá, baixa, e tem a sensação de que  ouviu antes da maioria. Ele ouve, reouve, se habitua com a obra, e se for boa e agradar, ele vai e compra. Simples! Os fãs antigos, que compravam LPs na época do lançamento, abriam encarte e liam as letras, esses estam ”garantidos”, vão lá religiosamente para comprar o álbum, mas com essa de ”vazamento” ganha-se outra parcela de público. E por fim, o que para mim foi a maior tacada de mestre: o Iron contratou uma empresa para analisar os torrents de seu novo álbum, fazendo uma lista das cidades que mais baixaram ilegalmente o álbum The Book of Souls, para com isso, mapear onde estão mais populares, onde o álbum foi mais buscado, e assim marcar shows passando nessas cidades. Ou seja, ao invés de ficarem choramingando como o mala do Scott Ian faz, dizendo que a internet não deveria ter existido, o Iron usou as mudanças a seu favor! O álbum virou cartão de visitas para o show, algo que o Iron Maiden foi caprichando cada vez mais com o tempo.

    Se você gosta ou não da banda, tudo bem. O que importa é que eles não ficaram reclamando das mudanças do mercado musical! Eles como grande empresa que são, souberam utilizar tais mudanças a seu favor, provando que a longevidade do seu trabalho, se deve não só a competência de seus integrantes musicalmente, mas a mentes que pensam como empresa, e analisam bem o mercado a sua volta, tornando ameaças, em oportunidades.

Seja um pouco ”oportunista” na guitarra! Potencialize suas qualidades!

93-og

Richie Kotzen: como notou ter mais facilidade com ligados, virou esse monstro…

    Sabe quando você está estudando, e vem logo aquele tipo de técnica que você fica mais à vontade, e sente mais facilidade para fazer? Então, a tendência é você pensar algo assim: ”Ok, os ligados saem, mas a palhetada é uma porcaria, sou um merda”. Antes de ter esse pensamento ”fofo”, que tal pensar: ” Hey! Consigo fazer ligados com bem mais facilidade, por que não investir nisso? ” . Não é largar de mão as técnicas que possui mais dificuldade ( nada de se auto boicotar ), mas é potencializar suas habilidades, as suas competências, algo bem corriqueiro no mundo corporativo e empresas bem sucedidas, que buscam sim, corrigir falhas e amenizar fraquezas, mas focam no seu potencial, aonde podem liderar e sobressair. Seguindo essa lógica, você pode trabalhar no que é mais natural para ti, ser um pouco ”oportunista” na hora de moldar parte do seu estilo. Se você está estranhando essa palavra, sinto-me à vontade de usá-la desde que li uma entrevista com Edu Ardanuy dizendo que fez isso: foi ”oportunista”, potencializando aquilo que lhe era mais fácil, para ganhar destaque nisso, e foi buscando nivelar aos poucos outras técnicas que lhe eram mais difíceis. O moço acima, Richie Kotzen, muito do sabido, viu que possuía bem mais facilidade com ligados do que com palhetada, e sobre isso, foi estudando o estilo de Allan Holdsworth e Steve Vai, e trazendo para seu universo musical, e moldou um estilo único sobre essa facilidade que ele tinha, a ponto de hoje em dia ter desprezado a palheta, e sambar na nossa cara, tocando coisas absurdamente técnicas e virtuosas sem a mesma. Veja isso, e solte o clássico ”PQP”:

    Após essa humilhação, cito o mesmo para comigo. Eu tinha muita dificuldade de palhetar um desenho de escala, em sua totalidade. Porra, eu cagava sempre no meio, ou no final! Aos poucos fui notando que eu conseguia executar o mesmo padrão, com ligados, e sem me matar para isso. Então, fui tentando desenvolver esse lado, e estudando por fora palhetada, e sempre que ia fazer partes longas com palhetada, e via que ia começar a perder a sincronia, completava com ligados, o que dava uma mistura sonora interessante. Conclusão: Hoje, mesmo fazendo longos trechos com palhetada, mesclo sempre partes com ligados, e acrescento tapping também para alcançar maiores intervalos, tudo aproveitando essa facilidade que descobrir ter. Só pra você ter uma ideia, vou botar um vídeo meu aqui, em homenagem ao moço de cima, e a Jeff Beck:

    Deixo aqui, uma tabelinha, para te ajudar a visualizar seus pontos fortes, ao lado de suas fraquezas:

lll

    Não é incentivo a deixar de lado suas dificuldades! É um incentivo a uma tomada de direção mais qualitativa de si mesmo, que busca ver seus pontos fortes e potencializá-los, ao invés de olhar pelo prisma do pessimismo que só enxerga a dificuldade, e se auto deprecia.