Arquivo mensal: agosto 2016

Jerry Cantrell: o gênio minimalista

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     O David Gilmor do metal. Desde sempre foi a sensação que tive ao ouvir o som acachapante de Jerry, do Alice in Chains. Meu primeiro contato foi com o álbum Dirt, que fui ouvir com certo preconceito até ( afinal, era uma banda de grunge, que possui o esteriótipo de música simples demais, ou até mesmo mal tocada ). Mas tal qual não foi minha surpresa, ao ouvir as duas primeiras porradas que abrem o álbum: Them Bones.e  Dam That River. Com o passar do álbum ouvi riffs absurdamente pesados, compassos 7/8 ( oi? grunge? ), e solos melódicos com muita pegada, que me fizeram pensar que ele seria a união do Tony Iommi com David Gimour. Diferentemente dos seus companheiros de Seattle, o Alice in Chains possui um apuro melódico e senso de composição expostos em canções acústicas com influência country e folk, até às mais pesadas, que faz a ideia de que grunge é mal tocado, cair por terra. Aliás, o Alice possui sim elementos do movimento, como a melancolia nos vocais, mas seus temas são mais contemplativos, possuem harmonizações vocais complexas feitas por Jerry e o finado Layne Staley, com influências de cantos gregorianos, e uma base corpulenta com afinações muitas vezes baixas, com influência de Sabbath, e até mesmo afinação dropada, com guitarra meio tom abaixo, e o bordão descendo 1 1/2 tom, algo que Eddie Van Halen faz em Unchained, e Zakk Wylde passou a fazer à partir do álbum No More Tears, por exemplo. Aliás, o Alice já abriu shows do Van Halen e Jerry já arrancou elogios de músicos como Kerry King, Dimmebag Darrel e o próprio Zakk.

    Por fim, trago aqui alguns exemplos do porque eu considerar Jerry Cantrell um dos últimos gênios da guitarra a terem destaque numa geração em que cada vez mais, a música fica menos orgânica.

Cadê o grunge dessa porra?

Veja com essa canção soa o tempo todo: arrastada de maneira a quase sair do tempo…

OBS: Olha esse arranjo de guitarra e o solo!

Ué…Extreme?

Pqp!

Acho que eles andaram ouvindo Eletric Funeral, do Sabbath, na hora de compor essa…

Choremos…

Essa leveza ao vivo…

Esse riff é agonizante!!! Apenas 2 notas e bends.

Essa música é incrível, no arranjo como um todo, sem contar o super arranque pesado do meio.

Fecho com 2 do álbum The Devil Put Dinosaurs Here, que na minha opinião, é uma obra-prima dos últimos anos, produzido por Nick Raskulinecz, mesmo produtor dos últimos discos do…Rush!

Preste atenção no peso absurdo desse riff, e a quantidade de camadas gravadas, afim de dar peso e corpo.

Fecho com essa mais melancólica, que possui um dos solos mais belos de Jerry!

 

 

O que é tocar mais do que alguém?

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    Há anos atrás, estava eu numa sala de aula, junto de outro professor conversando sobre guitarristas, e trocando influências e conhecimentos. Entra um aluno e ouve nosso papo, em que Brian May ( Queen ) e Eddie Van Halen eram citados. Então o rapaz solta a pérola: ”Ah…mas eles tocavam bem na época deles. Hoje tem gente muito melhor”. Lembro-me até hoje da cara de espanto do outro professor, que tinha uma formação mais jazz, e tinha escutado coisas do Eddie Van Halen e ficado impressionado. Esse tipo de pensamento é razoavelmente comum num período do aprendizado, quando você contabiliza qualidade instrumental através da quantidade de sextinas e arpejos executados pelo guitarrista. Mas acho esse um fator que separa os meninos dos homens, os guitarristas dos garotos com uma guitarra pendurada no pescoço. Minha cabeça automaticamente volta à imagem de capa do álbum A Night At The Opera, do Queen, e suas músicas incríveis que foram compostas em 1975.

A Night At The Opera

    Um álbum que contém músicas como ”The Prophet’s Song”, e ”Bohemian Rhapsody”. Acredito que isso resume. Eu não teria capacidade de compor isso hoje com toda a informação existente. Nem você. Desculpe a franqueza. Obviamente, nada impede de você compor suas canções, e que elas sejam tão boas como um clássico desses, mas entenda uma coisa: essas canções foram feitas como grandes composições. Letras, harmonias vocais, acordes, encadeamentos harmônicos, timbres, dinâmicas, solos e com um frescor incrível para a época.

    Digo o mesmo quanto ao Eddie Van Halen! E meu caro amigo, há poucas semanas fiz um evento com meus alunos, e tive 2 semanas para estudar e aprender ”Hot for Teacher”, e o que tenho a dizer é: caralho, que coça eu tomei! A base ritmicamente chata de manter, dinâmicas, e mesmo com ar de improviso, seu solo possui cada frase milimetricamente no seu lugar. Sempre defendi o fato que Eddie toca com facilidade desumana, e sempre abaixo da sua capacidade. Opa, como é que é? Exato. Meu amigo, veja esse vídeo:

    Agora me diz se esse corno, tocando com essa facilidade, não toca com o pé nas costas essas tranqueiras. Agora imagina no dia que ele falar: ”Vou tocar tudo que eu sei, seus merdas”. Mas o pior não reside nem nisso: reside no fato de que ele criou muita, mas muita coisa, e pra variar, o que ele não criou, ele reinventou. Basta ouvir Eruption, gravada em 1978, que junto do álbum Van Halen I , soa como se tivesse sido gravado semana passada, e ainda apavora guitarristicamente falando.

    Então, quando você ver alguém que pensa assim, lembre-se que pegar o carro pronto e virar a chave é uma coisa, criar as rodas, antes mesmo do próprio carro, é outra completamente diferente.