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O que é tocar mais do que alguém?

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    Há anos atrás, estava eu numa sala de aula, junto de outro professor conversando sobre guitarristas, e trocando influências e conhecimentos. Entra um aluno e ouve nosso papo, em que Brian May ( Queen ) e Eddie Van Halen eram citados. Então o rapaz solta a pérola: ”Ah…mas eles tocavam bem na época deles. Hoje tem gente muito melhor”. Lembro-me até hoje da cara de espanto do outro professor, que tinha uma formação mais jazz, e tinha escutado coisas do Eddie Van Halen e ficado impressionado. Esse tipo de pensamento é razoavelmente comum num período do aprendizado, quando você contabiliza qualidade instrumental através da quantidade de sextinas e arpejos executados pelo guitarrista. Mas acho esse um fator que separa os meninos dos homens, os guitarristas dos garotos com uma guitarra pendurada no pescoço. Minha cabeça automaticamente volta à imagem de capa do álbum A Night At The Opera, do Queen, e suas músicas incríveis que foram compostas em 1975.

A Night At The Opera

    Um álbum que contém músicas como ”The Prophet’s Song”, e ”Bohemian Rhapsody”. Acredito que isso resume. Eu não teria capacidade de compor isso hoje com toda a informação existente. Nem você. Desculpe a franqueza. Obviamente, nada impede de você compor suas canções, e que elas sejam tão boas como um clássico desses, mas entenda uma coisa: essas canções foram feitas como grandes composições. Letras, harmonias vocais, acordes, encadeamentos harmônicos, timbres, dinâmicas, solos e com um frescor incrível para a época.

    Digo o mesmo quanto ao Eddie Van Halen! E meu caro amigo, há poucas semanas fiz um evento com meus alunos, e tive 2 semanas para estudar e aprender ”Hot for Teacher”, e o que tenho a dizer é: caralho, que coça eu tomei! A base ritmicamente chata de manter, dinâmicas, e mesmo com ar de improviso, seu solo possui cada frase milimetricamente no seu lugar. Sempre defendi o fato que Eddie toca com facilidade desumana, e sempre abaixo da sua capacidade. Opa, como é que é? Exato. Meu amigo, veja esse vídeo:

    Agora me diz se esse corno, tocando com essa facilidade, não toca com o pé nas costas essas tranqueiras. Agora imagina no dia que ele falar: ”Vou tocar tudo que eu sei, seus merdas”. Mas o pior não reside nem nisso: reside no fato de que ele criou muita, mas muita coisa, e pra variar, o que ele não criou, ele reinventou. Basta ouvir Eruption, gravada em 1978, que junto do álbum Van Halen I , soa como se tivesse sido gravado semana passada, e ainda apavora guitarristicamente falando.

    Então, quando você ver alguém que pensa assim, lembre-se que pegar o carro pronto e virar a chave é uma coisa, criar as rodas, antes mesmo do próprio carro, é outra completamente diferente.

Blues para todos nós…

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    Novamente um amontoado de coisas, mesmo organizadas, perto de mais um compromisso, fazem sua presença em forma de um frio na barriga. Dentre mais uma semana de aulas, visualizei alunos evoluindo bem, tanto na visualização de escalas pelo braço, e começando a improvisar melhor com as mesmas, mais uma constante foi notada em muitos: palhetada alternada, e a forma como cada um se posiciona fisicamente, perante o instrumento. Alguns alunos seguravam a palheta de uma forma a travar completamente a palheta entre os dedos, dificultando assim, tocar com mais leveza, e certas vezes, posicionando a mão, de forma um pouco diferente, que possuía muito mais chances de atrapalhar, do que ajudar. Tocar um instrumento, é relaxar para a vida, se divertir, e trazer paz para si. Não é para ser dotado de esforço, ou força desnecessária. Cada técnica vai demandar mais ou menos força, mas saber a forma mais tranquila de executar cada uma, é um dos detalhes mais importantes, para desenvolver-se bem no instrumento.  Acaba que cabe um pouco ao professor, fazer um certo trabalho de observador também, vendo o aluno tocar, de forma natural, certas vezes sem que o próprio repare, e fazer um trabalho de formiguinha, tentando achar pequenos detalhes, que podem estar dificultando o aprendizado.

    Junto disso, a cabeça a mil, com detalhes de um workshop a serem resolvidos: slides com fotos dos músicos citados, tópicos a serem falados, e estudo de cada tema a ser executado, da melhor forma possível, apresentando detalhes da história da guitarra, e de um gênero tão rico como o blues, com todas as vertentes que ele originou, em apenas 2 horas. Linkar o mundo de Robert Johnson, com o de Stevie Ray Vaughan e o de Joe Bonamassa, e o que isso tem a ver com Eddie Van Halen e Paul Gilbert. O que teria a ver isso, com country, ou com jazz? A responsabilidade de apresentar a muitos seus pontos de vista, informações valiosas, sem soar chato, e conquistar novos olhares para a música, seja para estudar mais e buscar melhorar, seja para se interessar a começar a tocar, ou apenas, trazer um pouco mais de conteúdo ao paladar musical de cada um, trocando informações, ouvindo o que cada um tem a dizer. Afinal, música é uma das mais belas trocas que um ser humano pode fazer para com o outro.

Diário de um músico: Dedicação, foco e excelência

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Rory Gallagher: exemplo de paixão e comprometimento com a música

    Um fator que sempre bato na tecla com meus alunos, e até comigo mesmo. O quanto você realmente se entrega à sua profissão? De corpo e alma? Desânimo, doenças, tristezas, baixa autoestima, milhares e milhares de fatores contra a excelência nas suas atividades e trabalho. Mas seja qual for a atividade desenvolvida, para ser com muita qualidade, é preciso empenho, e uma dose de entrega. Diria até mais: paixão. Paixão pelo que se faz. Quantas e quantas pessoas estão atrás de mesas com papéis, ou em outras funções, talvez até muito bem aceitas socialmente, mas são infelizes? Isso muitas vezes, resulta em tarefas executadas corretamente até, mas sem um elemento que traga diferencial, que faça com quem você esteja trabalhando solte um ‘’UAU!’’, pela qualidade do seu trabalho. Dado esse ponto de vista, há necessidade de salientar que, só faz extremante bem feito, quem conhece, quem busca melhorar cada vez mais seus conhecimentos e suas habilidades.  Logo a dedicação e o traçado correto de um objetivo, de sua meta, e como chegar nesse lugar chamado excelência, traz a diferença. Saber onde empregar sua paixão, não frustrá-la, guardando-a num baú trancado, e jogar sua força nisso, de corpo e alma, com dedicação e organização. Esse fator faz a diferença, seja qual for a área. Seja lá o Pelé, Bill Gates ou Eddie Van Halen, todos se entregaram de corpo e alma às suas profissões, tarefas, e souberam onde empregar suas energias. Já vi muitos alunos com determinação, força de vontade, mas que em casa na hora de estudar, perdem o foco e começam a tocar coisas a esmo, repetindo o que sempre já tocaram, e com isso, começam a acreditar que não possuem capacidade avançar. Buscar orientar cada um deles, mostrar os caminhos mais assertivos em busca de um objetivo maior. E não há nem um tom de superioridade em minhas palavras, pois estou nessa mesma busca até hoje, e passo pelas mesmas mazelas que desanimam e atrapalham a qualquer um, e deparo-me com situações complexas de resolver, como por exemplo, marcações de aulas somadas no mesmo dia, totalizando com 12 alunos no mesmo dia, entre idas e vindas do blues rock de Rory Gallagher, que tocava nas caixas de som, entre uma aula e outra. Mas a dedicação e paixão por tudo superam, e anos estudando assuntos sobre determinada área, conseguem fazer você direcionar melhor como organizar cada detalhe da melhor forma possível, afim de que todos saiam com a sensação de que valeu sair de casa, para ter mais uma aula.

    Para fechar, costumo dizer que todo professor possui uma pitada de psicólogo, ainda mais sendo professor de música, que possui uma afinidade muito maior para com o aluno, afinal mexe-se com sonhos e com a sensibilidade do mesmo,e ouço desde histórias hilárias, até medos e desabafos. Orientar como fazer, pautado na experiência já vivida, ou em opiniões saudáveis, mostrando onde direcionar mais sua força, contribui tanto quanto uma escala, um acorde, ou uma música ensinada, para que dentro dos seus limites, todos busquem a excelência. Como diria o jornalista Malcolm Gladwell, escritor do livro Outliers: The Story of Success, para se destacar em determinada tarefa, são necessárias 10 mil horas de trabalho árduo, citando como por exemplo, os Beatles , que ficaram em Hamburgo trabalhando por 18 meses e tocando 5 horas por noite para aperfeiçoarem sua técnica e trabalho em grupo, e que resume de forma simples como mesclar bem o foco, a paixão, e como obter sucesso na sua tarefa:

  1. a) Faça trabalho que tenha significado e seja inspirador para si;
  2. b) trabalhe arduamente;
  3. c) lembre-se que a recompensa merecida depende do esforço que fizer para alcançá-la.