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A guitarra e a caixa de ferramentas

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    “Herick, para tocar guitarra preciso saber fazer arpejo?”

    Essa foi a pergunta que recebi uma vez, de um rapaz que queria fazer aula. De certa forma, essa pergunta possui duas respostas: sim e não. Nunca vi o Zakk Wylde fazer mil arpejos um atrás do outro para fazer belos solos, da mesma forma que o Malmsteen faz direto, e nem por isso tudo que ele faz fica belo. Se você não souber fazer determinada técnica, ou não conhecer teoricamente algum elemento, você pode fazer boas canções e tocar bem? Óbvio que sim! Certa vez li uma entrevista do Stevie Ray Vaughan, na qual ele era questionado sobre como ele pensava em tais acordes em suas canções, e ele responde dizendo que não sabia muito sobre teoria, apenas fazia, e soava bem. Vai dizer que ele não compôs grandes canções e tocava bagarai? David Gilmour já disse em entrevista que foi aprender as escalas há pouco tempo, quando foi estudar sax. E mesmo assim ele compôs “Shine On You Crazy Diamond”, e possui uma afinação de bends que beira à perfeição. Então, o que é necessário afinal? Minha teoria é a da caixa de ferramentas. Imagine-se em casa, e algum aparelho solta uma peça, e você precisa apertar um parafuso. Usa-se uma chave de fenda. Se você precisa botar um quadro na parede? Usa-se um martelo e um prego, e por aí vai. O que quero dizer com isso? Cada situação musical requer uma abordagem. Uma música do Queen nunca precisou de uma sequencia enorme de palhetada alternada para soar bela e bem arranjada, mas nas músicas do Pantera esse elemento cai como uma luva, e é feito com maestria. O repertório desses músicos possui uma gama de técnicas e conhecimentos no qual eles os aplicam conforme suas necessidades. Então, vendo por esse ponto de vista, te convido a pensar assim: se numa situação de improviso, você quiser usar um padrão de ligados, eles soariam uniformes e limpos, com uma velocidade boa, que combine com o solo? Cada música há de dar a abertura necessária para aplicação dos conceitos que ela necessita para se desenvolver, então cabe a você pensar e ver o quanto realmente precisa e principalmente, quer dominar, para oferecer às suas canções ou a sua forma de tocar.

    Tudo o que você domina musicalmente há de ser acrescido à sua caixa de ferramentas musical, indo desde acordes, escalas, técnicas de execução, etc. Então eu pergunto: como anda a sua caixa de ferramentas?

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Pelo que o músico deve ser pago?

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Hoje, muito se é falado sobre downloads, pirataria, etc, etc. Acho que hoje é um caminho sem volta, e um álbum tornou-se um cartão de visitas para seus outros predicados. E sejamos sinceros: quantas vezes nos sentimos mal ao comprar um álbum, e dar de cara com um trabalho sem inspiração, ou muito ruim de fato? ( imagina a dor de quem comprou o ”Risk” do Megadeth, ”St. Anger” do Metallica, ou ”Chinese Democracy” do Guns, nas suas datas de lançamento). Tal qual como uma roupa, podemos experimentar antes de saber se queremos mesmo comprar. Mas isso é uma opinião minha apenas, sem verdades absolutas. Mas se a arte é algo fora da nossa compreensão ( tente me explicar, como seres humanos, sozinhos, sem uma ajuda divina, compõem ”Stairway to heaven” ou ”2112”?) , se é algo que surge de graça para nós como inspiração, o que deve ser pago? Se tocar em público, é um prazer enorme, o que deve ser pago, então? Não vou nem comentar a parte do sustento, que é bem óbvia, mas venho salientar que para chegar ao ponto, de um músico improvisar um solo coerente, dar vazão ao feeling e de forma clara, são horas e mais horas de investimento. Dedos doloridos dos primeiros acordes, que ficam mais doloridos ainda, quando começamos a pegar bends, tendo o cuidado de deixá-los certos. Sincronizar as 2 mãos, aprender como funciona cada acorde, cada escala, cada ritmo. Se capacitar, para ter o máximo de recursos em si, para que a música extrapole de você. Lembro-me de ler uma entrevista de Joe Satriani, no qual ele disse que ficava 12 horas por dia, EU DISSE 12 HORAS POR DIA, estudando a escala lídio dominante, afim de dominar sua sonoridade e poder improvisar bem com ela. Quantos anos de estudo, abstenção e dedicação, um músico emprega pra poder ser instrumento de sua própria música, e qual o valor disso? Fora os equipamentos, que vão precisando evoluir com o tempo, para dar condições para a sua obra surgir, e seus estudos renderem. Preparar-se para um show, gera inúmeros investimentos além do ”ir ao local”: horas de ensaio, às vezes desgastantes, e pega música, e faz arranjo, e alimentação, horas de sono a menos, e por aí vai. O mesmo vale para um professor: ele cobra o valor do tempo que ele precisou se dedicar, para te passar as informações da melhor forma possível.

Então, quando ver um músico no palco, pense nisso: ele ali em cima, é a soma de anos de estudo, que o faz ali ser tão incrível, e merecer ser pago por isso.

Otimize seu estudo, e treine certo!

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    Como vez por outra, vejo gente falando da forma que estuda, e sempre fica capengando em certa técnica, tendo ainda dificuldade de organização para otimizar tais estudos, vou dar umas dicas pessoais, e espero ajudar um pouco:

  1. Conteúdo a ser estudado: Eu trabalho passando exercícios que variam de escalas ( de forma horizontal e verticalmente ), técnicas sobre a mesma ( bend, vibrato, palhetada, ligados, tapping, etc ), improvisação, músicas, etc. Então chego com uma folha com 5 exercícios por exemplo: numa aula consigo passar 3, ele treina loucamente esses, e na semana seguinte, passo os outros 2, aí ele treina só esses, e caga a evolução dos outros 3. Se você evoluiu bem nos 3 primeiros, e pegou 2 novos, diminua o tempo de treino dos 3 primeiros, e faça mais os outros  2, porém não abandone os antigos!
  2. Estudo de técnicas: Vejo casos assim: o aluno está treinando palhetada. Faz isso segunda e terça. Aí ele vai estudar uma música que requer ligados, e o que ele faz? Estuda só isso o resto da semana, e dias depois, quando vai fazer algo mais palhetado, sai tropeçando na porra toda. Não faça isso! Busque evoluir tudo por igual. Se você tem o material com os exercícios, é muito melhor você estudar cada exemplo 5 minutos por dia, e fazê-los evoluir por igual, do que estudar um exemplo uns 3 dias direto, outro exemplo mais 3 dias, etc. No fim, os primeiros ficarão quase como se você nunca tivessem sido treinados. Pense numa atividade física, e diga quem é mais saudável: o cara que faz uma caminhada de 30 minutos todo dia, ou o que faz 4h de exercício na academia, 2x por semana?
  3. Metrônomo: chega de ter medo dele, igual paciente no dentista! Ele serve para te ajudar a tocar no ritmo certo, e otimizar sua evolução, mas há um erro corriqueiro, no que tange o aumento dos BPMs: muita gente faz um exemplo, lick, frase, num tempo ( ex: 80 bpm ). Aí na hora de aumentar, dá um salto muito grande ( ex: 90 bpm ). Isso faz com que sua musculatura sinta bem esse aumento, e não é a melhor forma. Aumente de 2 em 2, se possível, de 1 em 1! Sim, vai demorar mais tempo, mas com isso, sua musculatura não vai sentir o aumento, cansará menos, e você conseguirá avançar bem mais na precisão e velocidade. É como se ”trapaceasse”: o intuito não é velocidade? Então, você estuda tudo muito devagar, e subindo de pouquinho em pouquinho, para ”enganá-la” e depois…

Bom treino!

 

 

 

 

 

Estude muito. Quando? Agora!!!

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    O que faz de uma pessoa com uma guitarra, virar um guitarrista? Não há uma fórmula pronta, nem uma resposta definitiva, mas te garanto que tal processo não se dá, do dia para a noite. Com certeza, esse processo inclui abrir mão de sair algumas vezes, relacionamentos findados, noites em claro ( ou poucas horas de sono ), muitas horas numa cadeira dialogando consigo mesmo, e com suas felicidades e frustrações. Mas a vontade de se tornar um guitarrista de fato ( veja que estou citando guitarrista mesmo, como profissão, e não uma pessoa que toca algumas músicas na guitarra ), precisa andar lado a lado com o empenho, e saber aproveitar bem o seu tempo atual. Se agora te sobra uma tarde inteira livre, se chega da escola e fica sem compromissos, não desperdice esse tempo de forma alguma! Você não sabe o dia de amanhã, e futuramente surgirão outros afazeres, trabalho, cursos, e seu tempo será menor, e tudo que você estudar agora, com empenho, será refletido em ti e em seu jeito de tocar no futuro. Agora pouco eu estava treinando arpejos, que estudei a mais de 10 anos atrás, e mesmo que eu não use isso em toda música, nem em todo solo, eu carrego o que aprendi sobre o assunto comigo até hoje, e tenho no meu repertório para quando precisar tocar, ou ensinar. Chega a ser contraditório, a pessoa falar que quer ser músico na adolescência, chegar da escola, e à tarde, ou à noite, tocar guitarra apenas 1 hora por dia, e ficar de resto jogando vídeo game, ou vendo séries ( nada contra, mas né? ). E quem já trabalha e tem talvez menos de uma hora pra treinar? Bem…pense no futuro: você acha que terá mais tempo? Você acredita de verdade nisso? Então, nada mais correto do que arregaçar as mangas, domar o cansaço, e correr atrás. Se fosse uma faculdade, ou curso, você estaria arrumando disposição. Então, tentemos ao menos!

     Marty Friedman, Alexi Laiho, Steve Vai, Kiko Loureiro, John Petrucci, Cris Broderick, Juninho Afram e Steve Morse. Escolhi de certa forma aleatória, músicos dotados de técnica, musicalidade, e cada um com seu estilo. Você não precisa conhecer a fundo o trabalho de cada um, mas vale ir atrás de vídeos e entrevistas dos mesmos. Não é difícil achá-los citando que estudaram 8, 9…12 horas por dia, para chegar onde chegaram. Todos os citados já passaram dos seus 20 e poucos anos, e com certeza, carregam consigo o que estudaram com afinco há 10, 15, 20 anos atrás. Então, estude muito, pois você verá como daqui a uns anos, isso se tornará seu maior patrimônio.

Esteja preparado, como se fosse fazer um show com sua banda favorita

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    Ouço muita gente relatando que quer ter banda. Muita gente relatando que quer compor músicas. Muita gente falando que quer gravar um álbum e fazer shows, muitos shows. Mas poucas pessoas dizendo que querem sentar o rabo na cadeira, e honrar esse desejo. Já tive amigos e alunos que estavam em fase inicial de aprendizado, e queriam tocar thrash metal, por exemplo, mas optaram por tocar new metal ou punk, pois é o que dava pra tocar fácil. Antes que me matem, nada contra aos estilos citados! Apenas estou citando que muitos não se preocupam com o ir atrás para chegar ao topo dos seus sonhos, desejos, etc. Já citei aqui mesmo no blog, que expurgar ideias em forma de música, é ótimo, seja lá se a música tiver 1 acorde, ou mil riffs e solos. Mas se você ama hard rock estilo Van Halen ou metal no melhor estilo Black Label Society de ser, você vai viver tocando outro estilo apenas porque não consegue tocar ainda, sem reverter esse quadro para alcançar sua meta no futuro? O desejo existe por parte de muitos, mas o foco e organização para chegar nessa meta, a maioria não tem.  Lembro-me de ter por volta de 15 anos, e ser muito fã de Deep Purple e Rush já, e notei que estava fodido: teria que saber improvisar um bocado, entender um pouco ao menos de blues, acordes diferentes que combinem com belos dedilhados, solos melódicos e técnicos, tempos quebrados, e isso pra citar o básico que notei ouvindo essas bandas citadas. Eu não vou tirar o meu da reta! Eu tinha uma preguiça da porra! Mas com o tempo fui pegando mais gosto e pensando no quanto eu queria tocar como eles. Obviamente, não toco igual, e ainda bem, pois cada músico deve ser um indivíduo único, com suas peculiaridades. Mas fui buscando ter gabarito para me aproximar disso. Não se esqueça que nada vai ser conseguido do dia para a noite, nem sem esforço. Está errando? Olha o exercício com calma. Está embolando? Abaixe o BPM ( nem vou citar que é para usar o metrônomo ). Tem dificuldade em algo, ou desconhece? Pergunte a seu professor, ou pesquise, vá atrás, e tente se capacitar ao máximo para isso. Para chegar até ter tal habilidade precisa dominar outra antes? Então não queime etapas: faça-as com perícia e dedicação, para que cada fase tenha consistência e finque em ti. Coloque desafios para si e sua banda. Se é difícil para vocês tocarem Iron Maiden ainda, porém é o que vocês gostam, pegue uma que pareça menos desafiadora, e estude a mesma, cada detalhe de execução. Embora torne-se um processo demorado, isso trará um progresso enorme. Alimente seu sonho, mas seja você mesmo, base qualificada para ele.

    Então deixo aqui a pergunta final: se sua banda favorita te chamasse para fazer um show com eles, ou tocar uma música com eles, você estaria pronto?

A guitarra e os comportamentos tóxicos do aprendizado

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    A autoestima às vezes vem boicotar a porra toda, e quem toca guitarra sabe bem disso. Vem desânimo, achismos péssimos, que na maioria das vezes não possuem um pingo de verdade, e se valem da nossa mente e nossos pensamentos. Se forem pensamentos positivos, melhores resultados bons, se forem negativos, pior fica tudo. Então, de uma forma simples e direta, vou enumerar alguns pensamentos destrutivos que todo guitarrista tem uma hora ou outra, e você confere se já não teve um desses:

  • ‘‘Meus dedos não são rápidos, não vou conseguir tocar isso mais rápido ’’ : Seus dedos podem não ser rápidos, igual aos do Paul Gilbert, mas treino está aí para isso. Nem por isso, você não pode fazer sua música! Necessário disciplina e dedicação para ir galgando etapas. Ou você acha que ele nasceu, saindo da mamãe dele, e já foi gritando: ‘‘ Buááááá! Buááá! Quero voltar! Toma um padrão de palhetada do Al Di Meola, buáááá! ’’
  • “Meus dedos e pulsos doem, não vou conseguir tocar essa merda ’’ : a ponta do dedo vai doer mesmo, até criar calo, e se você fizer bend o dia inteiro tocando Stevie Ray Vaughan, vai doer também, mas pare de frescura, né? Você faz muito mais coisas que deixam um dolorido, e você nem liga… ( ͡° ͜ʖ ͡°). Quanto ao pulso, aí sim, é necessário cuidado! Não adianta querer botar força pra querer acelerar as coisas, e um posicionamento errado, que além de empatar sua vida, poderá trazer várias ‘‘ites” no futuro.
  • “Minha guitarra é uma droga! ’’: Antes uma ruim, do que nenhuma, e já cansei de falar e mostrar exemplos de músicos, tirando sons incríveis de instrumentos não tão bons assim. E se está ruim, vai juntando para comprar outra depois. Garanto que se você economizar aquele dinheiro que você gasta todo final de semana para beber com a galera, começará a ter uma economia a ser usada nisso.
  • “Ah, estou cheio de problemas, aí fica difícil me dedicar”: acho essa a desculpa mais esfarrapada que existe, junto com ”não tenho tempo”. Se você esperar os problemas passarem, você vai morrer, os vermes vão comer seus olhos, e você não terá feito nada. Sua mãe vai reclamar no seu ouvido ( adapte para esposa/ marido/ namorado/ namorada ) sempre, trará problemas da casa, seu parente mala vai arrumar mais treta para você, infelizmente doenças existem e temos que lutar contra, decepções irão magoar a alma, mas vai esperar a vida ser um lindo jardim florido, para fazer o que quer e precisa?
  • “Não tenho banda, aí desanima…”: Se você não estudar para tocar melhor sempre, aí que não vai ter mesmo. A não ser que queria fazer cover de Nirvana, e mesmo assim, é preciso tocar as bases certas e com atitude.
  • “Minha família não me apoia, nem minha namorada/esposa”: Mãe e pai vão querer sua felicidade. Faça seu caminho e não desista, pois uma hora ou outra, eles te verão felizes e vão notar que é isso que te completa. Namorada/esposa você troca.

    Lógico que há um tom de humor aqui, mas grave essas frases, e toda vez que algo parecido vier em sua mente, lance pensamentos positivos sobre você mesmo e busque reverter as adversidades, pois elas nós passamos por cima, já um dom, não.

Você realmente ouve música?

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Tio Bill Clinton curtindo um som…

    Chega a ser contraditório e estranho perguntar isso para alguém que se dedica à música, estudando, e até mesmo trabalhando com a mesma: você realmente ouve música? Por vezes me deparo com alunos que ao estudarem uma música, dizem que estão com dificuldade, e deixam escapar que não ouviram muito a música, e até mesmo uns que dizem não ouvir música em casa para não atrapalhar alguém, não incomodar, etc. Então, pense comigo: imagine um grande chefe de cozinha, que faz receitas incríveis, ok? Ele antes de criar suas próprias receitas, precisou observar outras, experimentar, conhecer sabores, interiorizar conhecimentos, a ponto de ter esses elementos como ”seus”, e à partir daí, elaborar suas misturas e receitas. O critério de observação é necessário para absorver bem cada elemento, seja lá sobre qual assunto você estude. Então, como tocar uma música bem, se você não absorveu bem seus elementos e ”sabores”? Como estudar bem cada parte, se você não interiorizou bem a pegada, feeling da mesma, passagens, duração de acordes, dinâmicas, etc? Lembro-me de a pouco tempo, estudar a música ”Moonchild”, do Iron Maiden, contida no álbum Seventh Son of a Seventh Son. Eu ouço essa canção desde meus 17 anos, mas mesmo assim, ao estudá-la, precisei ouvir inúmeras vezes para absorver detalhes, melodias, etc. Haviam ali algumas notas no solo, e no arranjo geral, por exemplo, que eu nunca tinha reparado com tanta clareza. Outro exemplo legal que reli esses dias, foi do Kiko Loureiro, quando tocou com a cantora Tarja Turunen, em que ele pegou as músicas, fez um mapa das estruturas, e as ouviu incessantemente, como se fosse o que ele ”mais amasse na vida”. O mesmo digo para compor! Siga o mesmo raciocínio do chefe de cozinha: como compor suas ”receitas”, se você não estudou com calma outras? Como ter ideias de estruturas, mudanças de tempo, inspirações para melodia, se você ouve música superficialmente? Pegue os álbuns que te inspiram, as canções que mexem mais com você, e ouça analisando cada detalhe: como o groove se porta com o riff, e vice-versa, dinâmicas empregadas, a pegada dela, quantas camadas de guitarra você consegue ouvir, quantas vezes se repetem tais trechos ( introdução, estrofes, refrão, interlúdio, etc ), como que funciona o solo nela e como ele é amarrado ( aliás, ajuda muito a ter ideias para improviso ).

    Não deixe a música passar batida, sendo apenas um mero fundo musical para suas atividades. Permita-se curti-la, apreciar cada detalhe, e viajar com a mesma, afim não só de estudar, claro, mas também de se emocionar, sentir-se parte dela e alimentar suas ideias e inspirações.

Frustrações de um iniciante

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    O dedo que dói, a mão que não obedece o posicionamento adequado, os dedos que não apertam as cordas da forma devidamente correta, soando sujo por vezes, e que às vezes abafam outras cordas. O pulso que sem querer é forçado, a dor que vem de companhia para desanimar, e tudo isso, alimentando a ansiedade de querer tudo na hora. A dificuldade que desanima e alimenta os pensamentos destrutivos, que gritam em sua mente dizendo que você não leva jeito, não é capaz, não tem dom, e tantos outros pensamentos que não valem de nada. O novo! O novo amedronta, causa euforia. Traz na bagagem o desejo de conseguir e se aventurar numa nova empreitada, e o frio da incerteza que toma conta da alma, quando os obstáculos vão sendo descobertos. Não há vitória sem esforço, nem sem luta, e sem amadurecimento através do contato com o instrumento, com o estudo da música. Lembre do seu dia até agora: você levantou e andou, seja muito, indo trabalhar, ou em casa mesmo, apenas indo até a cozinha pegar um café. O ato de caminhar, é fruto de várias tentativas que você teve quando bebê, começando a engatinhar, para depois aos poucos, ameaçar levantar-se. Vários tombos foram necessários até que você firmasse seu corpo riste, e mesmo assim, foi necessário apoiar-se em algo, ou alguém segurou sua mão, para que tivesse mais segurança. Então vieram os primeiros passos sozinhos, e uma leva de tombos, até conseguir acostumar-se e ficar plenamente equilibrado, e aí sim, começar a andar com plena segurança, até que esse ato hoje em dia tornou-se automático e fácil. Agora, imagine-se quando bebê, se você tivesse consciência de todas essas dificuldades, e dos tombos que levaria, teria deixado pra lá, ou desistido? Você se vê, rastejando ou engatinhando pela casa, ou na rua, para pegar algo, sem andar? A mosca da insegurança sempre estará fazendo barulho em seu ouvido, seja em maior ou menor volume, mas quem determina o sucesso de um aprendizado novo, é você. Você é dono dessa verdade, e o que disser para si, há de funcionar como regra em seus planos,

Entre o elogio e a crítica

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    Todo músico amador ou profissional, vai conviver sempre entre elogios e críticas, e isso faz parte de um ambiente saudável, pois ao ser músico, você se expõe e se mostra. Isso é fato, e o relacionamento entre esses dois opostos, torna-se um termômetro, uma avaliação contínua do nosso trabalho, e merece reflexão.. A linha tênue que separa os benefício de um elogio e a acomodação, é bem frágil para quem não se policia. Todo músico ao receber um elogio, sente a recompensa de todo esforço empregado em horas de treino e estudo, seja do mais simples dos elogios, como estar melhor em determinada técnica ( palhetada, ligados, vibratos ), estar compondo melhor, ou sucesso em determinada empreitada, como gravação com sua banda, shows, etc. Mas é necessário bom senso, para avaliar se o elogio é realmente merecido e válido! Muitas vezes vi pessoas leigas elogiando a velocidade de uma pessoa tocando guitarra, com o famoso ”uau! Você toca muito!”, porém a execução não era limpa, ou apesar de velocidade, as ideias eram mal traçadas. É necessário saber onde encontram-se suas limitações, e mesmo que seja elogiado em uma delas, que permaneça a ideia de buscar melhorar naquilo, pois você possui discernimento para saber que não está tão bom assim, ou se estiver realmente bom, manter esse nível e sempre, eu disse sempre, buscar melhorar. O conformismo há apenas de travar seu desenvolvimento musical, te dando a falsa sensação de ”já sou bom o suficiente”. O mesmo tipo de raciocínio, deve ser levado para a crítica. Há músicos que não gostam de ser criticados em suas obras ou técnica, achando que estão sendo desmerecidos, ou que estão acima do bem e do mal, pois arte está acima de conceitos, blá, blá, blá. Se alguém chegar e disser que você não toca bem, mesmo que seja na grosseria, é necessário avaliar se isso é uma realidade, ou não. Mesmo que essa pessoa tenha sido absolutamente estúpida na sua forma de falar, pode ter salientado alguma realidade a ser melhorada, e esse mal estar causado pela crítica, que ficará em você por um bom tempo, pode servir como ”combustível” para sua tomada de decisão em busca de melhorias, caso você não seja uma pessoa conformada. Se a pessoa falou merda, ignore. Simples! A auto crítica também é muito válida! Há alunos que estudam licks, escalas, e técnicas para usar os mesmos, e num contexto de estudo executam bem, mas numa situação real de improviso, se embolam, erram, etc. Nada de mais, super normal. Porém, em alguns casos, alguns sentem-se ruins, sem capacidade, e com a sensação de que deveriam estudar mais, treinar mais…tentar mais! Que esse mal estar, vire força motivadora, em busca da melhora contínua, e isso nunca se apague em você! Avalie, pois nem sempre um elogio vai te ajudar, e nem sempre uma crítica é para te derrubar, e nunca se conforme com o que sabe,  pois quem se conforma, morre dentro si, e nem percebe.

522369_365152026909512_429593611_nkkkk Herick Sales, músico e professor de violão e guitarra a 11 anos.

Clássicos são clássicos

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    Gosto não se discute. O que eu acho uma merda, você pode amar, e vice-versa. Ok. Mas vou trazer o foco para o que tange o aprendizado e digo até o profissionalismo do músico, no caso aqui, o foco será guitarra. Hoje, muita coisa do que é possível  se fazer musicalmente com uma guitarra, foram feitas, e ficaram registradas muitas vezes, em álbuns que permanecem como clássicos à 20, 25, 30, 40 anos! Então… o que esses álbuns têm afinal? Hoje, encaro parte da música atual como música pra burro: não é para te fazer pensar, questionar, degustar. Tudo tão imediato quanto um miojo. A música da rádio, é feita para celebrar amores de papel, dores de corno e balançar a bunda, celebrando pegações. Indo para o rock, temos a celebração da juventude com um neurônio do tamanho de azeitona, com gritos, melodias tacadas ao ‘’foda-se’’, groove por vezes duro, e quando tem um refrão que querem cantar ‘’mellhor’’, vem uma voz de adolescentes de 13 anos, que parece que vive o maior drama existencial da galáxia…enfim…salvo essas considerações em torno das minhas opiniões, que me fazem sentir falta do Nirvana, que ao menos tinha garra ( olha que nem gosto muito ), esse é meu gosto. Fim de papo. Agora quando a coisa cai para o lado da profissionalização musical, com conteúdo, a coisa muda de figura. Há álbuns que independente de gosto, predileção, uma hora ou outra, precisam ser escutados. Faz parte da formação, se você almeja um crescimento musical, e não sou eu apenas que digo isso! De Mozart Mello à Slash, de Edu Ardanuy à Jeff Loomis. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band “, dos Beatles, foi um marco absurdo para a música, sendo considerado um dos pontapés do rock progressivo, e da psicodelia, já tendo sido considerado o melhor álbum de rock já gravado, além de ter a incrível produção do mago George Martin, que produziu um álbum incrível, numa época em que recursos eram escassos. O mesmo para o clássico “The Dark Side of the Moon”, que já apareceu mais de 800 vezes nas paradas desde seu lançamento, e tendo sido revolucionário musicalmente quanto tecnologicamente, tendo usado o que de havia de mais moderno na época, e ainda foram criadas mais umas maluquices, afim de registrar a sonoridade desejada ( isso sem contar a aula de guitarra ministrada por Gilmour que bota 90% dos guitarristas atuais no chinelo ). O que falar do “Machine Head”, do Deep Purple, gravado numa tacada só, ao vivo, em instalações de um hotel de Montreux, e sem correções? Chega a ser um golpe na cara, em tempos de ‘’tudo se corrige’’ no estúdio, e em que você nem precisa tocar de verdade para gravar. A temática abordada no álbum “2112” do Rush, que desafia conceitos comerciais da época, com sua canção homônima super intricada, passando 20 minutos, mesclando progressivo e hard rock ( se você curte Dream Theater, aqui de onde veio, óh…), e com apenas 3 integrantes. A sobriedade de Clapton, numa aula de canções e blues, flertes ao rock, pop e country, imortalizados no clássico “Slowhand”, em que mostra licks por vezes simples, mas perfeitamente encaixados. Dizer que toca metal, ama o gênero, e não ter degustado o “The Number of the Beast” por um bom tempo, sem entender o impacto de cada canção, seus arranjos, técnicas avançadas de guitarra usadas por Adrian Smith e Dave Murray, e o primor da produção do genial Martin Birch, é quase sacrilégio! Sacar o impacto no mercado, que foi o lançamento de “Texas Flood”, do Stevie Ray Vaughan, que trouxe de volta o blues, e na década de 80, mostrando uma pegada e fraseado descomunais, de forma orgânica, sem deixar de prestar tributo à Albert King ( outro senhor que merece vossa atenção ). Até mesmo para quem não curte música instrumental, ou virtuosismo, é de extrema importância entender por que o álbum “Surfing With the Alien” do Satriani, o elevou ao status de deus da guitarra, com sua técnica quase sobrenatural, ligados absurdos, e melodias modais.

    Eis que já fui questionado, se uma pessoa que não ouve essas coisas, não pode tocar bem, etc…claro que pode! Busque nos youtubes da vida. Eu mesmo já vi e tive contato com gente que ouve Avenged, ou seja lá o que o dia todo, e toca os mesmos com perfeição. Mas e aí? Não estou falando de tocar bem. Tocar bem, tem milhares por aí. Tocar bem não é tão difícil, mas dominar plenamente seu instrumento, ter vocabulário, saber se posicionar perante à um arranjo, de formas que se adaptem e não choquem, ter cartas na manga que te permitam transitar por alguns estilo sem passar vergonha ao menos, e entender como a música evoluiu, qual foi sua trajetória, é o ”x” da questão. E olha que citei só alguns clássicos no rock e blues, que acho o mínimo a ser feito e conhecido, se você toca esse gênero.

   Estudar certas obras clássicas ( note que chamei de obra, não cd, álbum, disco ), não é o mesmo que baixar o mp3, ouvir  2 vezes, e depois, esporadicamente ouvir. Lembro-me que quando era adolescente, tive a ‘’sorte’’, de não ter internet. Digo “sorte’’, pois óbvio que queria ter! Porém, isso fez com que cada álbum que eu conseguisse, virasse artigo de luxo, a ser degustado até a última gota. Tenha sido o “Houses of the Holy” do Led Zeppelin, o “ Heaven & Hell “ do Black Sabbath, ou o “Van Halen I ’’, esses álbuns rolaram em meu rádio durante semanas e semanas, e eu com minha humilde strato vagabunda, ficava horas e horas, tentando tirar trechos, licks, riffs, improvisar na dinâmica das músicas, entender o estilo de cada guitarrista, entender o clima das composições e o por que esses álbuns perduraram por 20, 30 anos ou mais, diferente das mais novas hiper bandas do momento, que surgem, vendem milhões e graças ao bom Deus, somem depois.

     Seja lá o que você queira ser musicalmente falando, guitarrista, arranjador, produtor, enrolador de cabo de guitarra, não estude apenas para tocar na sua banda, ou para ser apenas bom, para ser mais um. Isso daí tem um monte. Vá atrás da história e do que montou essa história, e estude seriamente isso, pois isso pode fazer a diferença entre você ser de fato músico, guitarrista, ou apenas mais um moleque com uma guitarra pendurada no pescoço.