Arquivos do Blog

O que é tocar mais do que alguém?

O616OLCt

    Há anos atrás, estava eu numa sala de aula, junto de outro professor conversando sobre guitarristas, e trocando influências e conhecimentos. Entra um aluno e ouve nosso papo, em que Brian May ( Queen ) e Eddie Van Halen eram citados. Então o rapaz solta a pérola: ”Ah…mas eles tocavam bem na época deles. Hoje tem gente muito melhor”. Lembro-me até hoje da cara de espanto do outro professor, que tinha uma formação mais jazz, e tinha escutado coisas do Eddie Van Halen e ficado impressionado. Esse tipo de pensamento é razoavelmente comum num período do aprendizado, quando você contabiliza qualidade instrumental através da quantidade de sextinas e arpejos executados pelo guitarrista. Mas acho esse um fator que separa os meninos dos homens, os guitarristas dos garotos com uma guitarra pendurada no pescoço. Minha cabeça automaticamente volta à imagem de capa do álbum A Night At The Opera, do Queen, e suas músicas incríveis que foram compostas em 1975.

A Night At The Opera

    Um álbum que contém músicas como ”The Prophet’s Song”, e ”Bohemian Rhapsody”. Acredito que isso resume. Eu não teria capacidade de compor isso hoje com toda a informação existente. Nem você. Desculpe a franqueza. Obviamente, nada impede de você compor suas canções, e que elas sejam tão boas como um clássico desses, mas entenda uma coisa: essas canções foram feitas como grandes composições. Letras, harmonias vocais, acordes, encadeamentos harmônicos, timbres, dinâmicas, solos e com um frescor incrível para a época.

    Digo o mesmo quanto ao Eddie Van Halen! E meu caro amigo, há poucas semanas fiz um evento com meus alunos, e tive 2 semanas para estudar e aprender ”Hot for Teacher”, e o que tenho a dizer é: caralho, que coça eu tomei! A base ritmicamente chata de manter, dinâmicas, e mesmo com ar de improviso, seu solo possui cada frase milimetricamente no seu lugar. Sempre defendi o fato que Eddie toca com facilidade desumana, e sempre abaixo da sua capacidade. Opa, como é que é? Exato. Meu amigo, veja esse vídeo:

    Agora me diz se esse corno, tocando com essa facilidade, não toca com o pé nas costas essas tranqueiras. Agora imagina no dia que ele falar: ”Vou tocar tudo que eu sei, seus merdas”. Mas o pior não reside nem nisso: reside no fato de que ele criou muita, mas muita coisa, e pra variar, o que ele não criou, ele reinventou. Basta ouvir Eruption, gravada em 1978, que junto do álbum Van Halen I , soa como se tivesse sido gravado semana passada, e ainda apavora guitarristicamente falando.

    Então, quando você ver alguém que pensa assim, lembre-se que pegar o carro pronto e virar a chave é uma coisa, criar as rodas, antes mesmo do próprio carro, é outra completamente diferente.

Você presta um serviço, ou implora pra tocar?

1237655467882_f

    Algumas pessoas bem próximas, sabem que fiz administração e com certeza, se eu trabalhasse na área, eu iria afundar qualquer empresa. Porém, o muito pouco ( quase nada ) que aprendi, me ajudou, e muito, a ter uma visão diferente perante a música. E para ser mais didático, vou exemplificar com trechos que li no livro ”Empreendedorismo”, do Alberto Chiavenato. Se você possui uma banda, você está numa empresa ou possui uma. Você pode não ter mil afazeres e obrigações que uma banda com o patamar de um Metallica possui, mas você precisa ter esse olhar empresarial. Você lida com a arte, que é um produto imensurável, não palpável, e que vai de encontro com o sentimento das pessoas, mas quando você se dispõe a gravar um álbum, sua música vira um produto, e ao tocar ao vivo, seu show vira uma prestação de serviço. Então, você já parou para pensar no que você oferece ao seu público, e como? Antes de mais nada, é necessário ter um pouco mais de espírito empreendedor! Segundo Chiavenato, o empreendedor é a pessoa que faz acontecer, pois possui sensibilidade para negócios, tino financeiro e identifica boas oportunidades, além de possuir 3 características básicas:

1) Necessidade de realização: quem não quer ter seu trabalho reconhecido?

2) Disposição para assumir riscos: será que as pessoas vão gostar da sua música?

3) Autoconfiança: quem possui autoconfiança, sente que pode enfrentar os problemas ao seu redor e tem certo domínio dos eventuais problemas.

    O processo empreendedor, envolve a criação de algo novo, que possua valor e seja valorizado pelo mercado, e bingo! Chegamos ao ponto que eu queria chegar: o que você oferece em termos musicais é um bom produto? É de qualidade? E aqui não estou falando de gosto musical, estou falando de competência para apresentar sua música, sua obra. Se você possui uma banda de punk, e quer tocar covers, ok! Mas puta que pariu! A banda vai e toca errado, fora do tempo, som todo embolado e com músicos errando. Citei o punk, pois é uma música em que o foco é mais voltado à simplicidade, e mesmo assim, tem gente que mostra uma apresentação ”lixuda”. Já vi uma banda ( não era de punk ) ao vivo, em que o guitarrista tocava bends desafinados, e com a guitarra desafinada. Olha a merda! Todo mundo notou isso, e era banda com EP gravado!!! Você acha que isso é prestar um bom serviço? Outro ponto que acho absurdo, é esse costume dos lugares de quererem que os músicos vendam ingressos. As desculpas são as mais variadas, dentre elas, que o lugar do evento, precisa ter essa margem de ”lucro”, para ter certeza que não terá prejuízo, etc. Pra mim, é o mesmo que o cara chamar a mulher para sair, mas já falar de antemão, que tem que ter uns ”agrados” depois, para ele não perder a viagem e não voltar no prejuízo, caso não role química. Absurdo isso! E não adianta dizer que as grandes bandas fizeram isso, que nunca ouvi falar sobre. Ganharam pouco para tocar, ou tocavam até de graça, mas pagar para tocar, não! Pois isso de vender ingresso, é pagar para tocar! O seu serviço, a sua música, é assim? Precisa ”pagar” ao local do estabelecimento para que te ouçam? A divulgação do evento e venda dos ingressos, é de responsabilidade do contratante, e não do músico! Óbvio que você vai chamar até Patati- Patatá para te ver, pois assim você ajuda na divulgação do seu próprio show, mas arcar com despesas, e vender o ingresso, repito: é responsabilidade do contratante. É preciso se impor, porém, mostrar algo de extrema qualidade. Lembro de ter lido que o Queen peitou a gravadora deles, dizendo que fariam o som que queriam, e assim o fizeram. Em contrapartida, entregaram o álbum ”A Night at the Opera”, que continha ”apenas”, a música Bohemian Rhapsody. Então, para você impor suas condições, que são básicas para tocar, é necessário apresentar um serviço de grande qualidade, seja lá qual tipo de som você faz, senão ficam elas por elas, o famoso um merecendo ao outro: dono do estabelecimento/contratante sem te dar o mínimo valor, e você, demonstrando que não é pra dar mesmo, pois você apresenta um serviço bosta.

    Com essa ótica, você já adquire outros 2 alicerces do processo empreendedor, que é a devoção, que envolve comprometimento e esforço para que suas músicas, execução, e seus shows sejam melhores e você possa crescer, e aceitar os riscos que virão, pois como todo e qualquer mercado, existirão êxitos e erros, que para quem tem visão, serve mais como aprendizado, do que derrota, afinal, apresentar sua música, que é o espelho da sua alma, requer muita, mas muita coragem.

522369_365152026909512_429593611_nk Herick Sales, músico e professor de guitarra e violão a 11 anos.

Como estudar outro guitarrista?

Eric+Clapton

    Ontem tive a prova de que meu trabalho não é em vão, pois fui procurado no facebook, devido minhas postagens, e recebi a seguinte pergunta: ”Como posso estudar um guitarrista?”. Não trarei a fórmula de como estudar as tretas guitarristas do Guthrie Govan, e acordar tocando como ele, pois não faço milagre, mas não sei se você acompanhou, que a um tempo atrás escrevi sobre estudar os discos clássicos, algo que o pessoal hoje em dia não faz muito. Aconselho o mesmo processo na hora de estudar o estilo de um determinado guitarrista. Todo músico evolui e muda em alguns aspectos ( vide Richie Blackmore nos anos 70, e depois no meio dos anos 80, mais técnico ainda), porém, há elementos que sempre se repetem no estilo de cada um, tornando-se suas características. Por volta de 10 anos atrás, lembro bem de ter pouco acesso a discos como hoje ( ontem mesmo pensei em escutar algo do Albert Lee. Botei no youtube, e ouvi um álbum. Quer processo mais fácil do que esse hoje em dia? ), então, cada álbum era uma joia rara a ser degustada ao máximo. Estudei vários guitarristas e ainda o faço, porém, estudo a obra e características, e tento incorporar ao que toco. Quando tive acesso a 2 álbuns do Deep Purple com Steve Morse, eu pirei, pois já tinha visto em um show em VHS, ele destruindo. Ouvi incansavelmente, e tentei tirar algumas ideias, li revistas com licks dele, e descobri que uma ferramenta que ele usa muito, é o cromatismo. Ok. Trabalho de casa: entender como ele faz, em quais passagens, dentro de qual escala, qual sonoridade ele obtém com isso. Ao ter acesso ao Heaven & Hell, do Black Sabbath, eu pirei, pois era pesado, mas com um toque mais rock ‘n roll em algumas canções, e um fraseado muito bonito, e mais ”desenhado”, em comparação a época do álbum Paranoid, por exemplo. Lembro de ter estudado muito sobre a canção ”Lonely Is the Word”, última do álbum, e notei que o lindo solo dela, bem improvisado por sinal, usava e abusava de bends e vibratos, notas com longa duração, e fraseado altamente calcado em blues, mas sem soar tão blues. Então, ouvia essa canção incessantemente, e após pegar o tom e absorver a rítmica das frases, comecei a improvisar em cima, tentando na cara de pau, copiar aquela forma de tocar. Toco igual ao Tony Iommi? Porra nenhuma. E isso se repetiu com muitos outros álbuns e guitarristas (lembro como se fosse ontem, eu passando tardes chuvosas ouvindo Houses of the Holy, e o ao vivo putaqueparivelmente incrível, How The West Was Won, e copiar os bends exagerados e riffs do Jimmy Page ).

    Ver também é muito importante! Quando pude ter um aparelho de DVD vagabundo da Casa & Video, o mundo mudou! No mesmo dia, pra estrear o bendito aparelho, achei o DVD Unplugged – Eric Clapton, e ganhei dias depois, o Queen Live at Wembley Stadium. Tinham dias sagrados, em que eu ligava o ampli mais vagabundo que piranha do Centro, e botava os DVDs e tentava copiar licks, a dinâmica, e improvisar sobre. Digo o mesmo com outros DVDs como Toto – Live in Amsterdan, Pulse – Pink Floyd, ou Mr. Big Farewell Live in Japan, da fase do Mr Big com Richie Kotzen. Pude ver, rever e pausar, e não só ouvir, vários truques, formas de frasear, quem usava mais ligados, palhetada, forma dos vibratos, etc.

    No meio desse estudo, chega um momento em que tudo que você absorveu reside numa ”terra de ninguém” musical, em que os licks, estilos de fraseado, técnicas, escalas, se misturam e besunta tudo( Zakk Wylde e Al Di Meola tocam muito rápido, e Stevie Ray Vaughan tem uma pegada descomunal para licks de blues…que tal misturar os 2, e fazer um lick com altas palhetadas e bends furiosos? ) . Não adianta tentar copiar todos os detalhes, virar uma xérox ambulante, mas pegar emprestado nuances e ideias, estilos, é muito válido, e os mesmos, ficarão no seu sangue. Assim, o resultado dessa mistura será aquilo que você sempre quis ser musicalmente: você mesmo!

A música que fez eu me considerar guitarrista…

Brian-May-queen-17229267-1024-768

    Lá pelos meus 18 anos, eu tinha minha guitarra e horas e horas de estudo sobre ela, mas ainda faltava algo, que fosse um marco, que me fizesse dizer: ‘’Caralho! Consegui tocar isso!’’ E esse marco pra mim, não é nenhuma canção do Dream Theater, Malmsteen, Steve Vai, ou algo do tipo. Esse marco chama-se ‘’I Want It All’’, da banda inglesa Queen. Desde que comecei a tocar guitarra e me envolver com música, tenho conhecimento de que o Queen era uma banda apoteótica e que Brian May, era uma lenda viva da guitarra, mas somente quando você estuda o trabalho de um guitarrista, é que você tem plena consciência da genialidade do mesmo. Sua introdução, com um bend absurdamente certeiro, e cheio de pegada, sempre me arrepiou, mas somente quando você tenta tocar, você encara o tamanho do problema. Reproduzir apenas esse bend com vibrato, com uma pegada próxima, me tomou um mês ( aqui cai a máscara de muita gente que acha que tocar bem, é fazer 57986468 notas tempo ). Após ter conseguido tocar essa introdução meio que sem querer, brincando na penta de Bm, vi como alguns ligados e as notas certas, são capazes de fazer uma introdução matadora. Sua base com batida diferente do normal para um hard rock (sim, Queen é bem hard e metal quando quer, e isso será assunto de um próximo post), repleta de licks que completam bem a música, me ensinaram como preencher de forma musical um arranjo, até seu refrão forte, e a encrenca maior: o solo! A música acelera depois de um lick de Brian May, e vem de tudo: bends e vibratos fortes, ligados, várias regiões do braço da guitarra explorados, pentatônica e escala natural, vários harmônicos artificiais, tudo equilibrado até chegar o seu final quase orquestral (note que a banda toda acompanha as batidas finais, tal qual uma orquestra).  Como se não fosse o bastante, aos 3:30 minutos, entra mais um pequeno solo, cheio de pegada, e uma frase final, cheia de ligados e rítmica intrincada, que busquei incorporar muito em meu fraseado.

    Fraseado! Diferente de subir e descer escalas, saber construir um solo é uma arte, uma pequena canção dentro de outra, e nisso Brian May é mestre, e com certeza estudar essa música, foi um grande marco para mim! Qual foi o seu?